Questão nº 11

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2019 (nº 11)

FCC2019Técnico Judiciário - Área AdministrativaLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Seis de janeiro, Epifania ou Dia de Reis (em referência aos reis magos), fecha o ciclo natalino que, entre os romanos, festejava o renascimento do sol depois do solstício de inverno (o dia mais curto do ano).

Era uma festa de invocação do sol, pelo fim das noites invernais. Durante esses festejos pagãos, os papéis sociais se confundiam. Havia troca de presentes e de identidades. O escravo assumia o lugar de senhor, o homem se vestia de mulher − como se, para agradar à natureza, tivéssemos de reconhecer a arbitrariedade das convenções culturais.

Nesse intervalo de poucos dias, o homem aceitava como natural o que por convenção as relações sociais e de poder não permitiam. Ameaçado pelos caprichos da natureza, reconhecia que as coisas são mais complexas do que estamos dispostos a ver.

É plausível que Shakespeare tenha escrito “Noite de Reis”, segundo Harold Bloom sua comédia mais bem-sucedida, pensando nessa carnavalização solar, para comemorar a Epifania. A peça conta a história de Viola e Sebastian, gêmeos que naufragam ao largo do que hoje seria Croácia, Montenegro ou Albânia, e que no texto se chama Ilíria. Viola acredita que o irmão se afogou. Ao oferecer seus serviços ao duque de Ilíria, ela se disfarça de homem, assumindo o nome de Cesário. É o suficiente para pôr em andamento uma comédia de erros na qual as identidades serão confrontadas com a relatividade das nossas convicções.

O sentido irônico do subtítulo da peça − “o que bem quiserem ou desejarem” − dá a entender que os desejos desafiam as convenções que os encobrem. As convenções se modificam conforme a necessidade. Os desejos as contradizem. Identidade e desejo são muitas vezes incompatíveis.

É o que reivindica a filósofa Rosi Braidotti. Braidotti critica a banalização dos discursos identitários, uma incapacidade de lidar com a complexidade, análoga às soluções simplistas que certos discursos contrapõem às contradições. Diante da complexidade, é natural seguir a ilusão das respostas mais simples.

Sob a graça da comédia, Shakespeare trata da fluidez das identidades. Epifania tem a ver com a luz, com o entendimento e a compreensão. Mas para voltar a ver e compreender é preciso admitir que as contradições são parte constitutiva do mundo. A democracia, em sua imperfeição e irrealização permanentes, depende disso.

(Adaptado de: CARVALHO, Bernardo. Disponível em: www1.folha.uol.com.br)


Está correta a redação deste livre comentário:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

Concordância verbal é a regra gramatical que exige que o verbo se adapte (flexione) em número (singular/plural) e pessoa (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) ao seu sujeito, garantindo harmonia na frase.

(A) Incorreta: A forma verbal "surpreendem" está no plural, mas o sujeito da oração ("que as noções de identidade sejam confrontadas a elas") é uma oração subordinada substantiva subjetiva. Nesses casos, o verbo principal (surpreender) deve permanecer no singular, ou seja, "não surpreende".
(B) Incorreta: O sujeito da oração é "as contradições que existem na sociedade" (plural). Portanto, o verbo "dever" deveria estar no plural, concordando com o sujeito: "Devem ser vistas". A proximidade do termo singular "fator" pode induzir ao erro, mas ele é um predicativo do objeto, não o sujeito. Esta é a armadilha da banca.
(C) Incorreta: Há dois erros de concordância. Em "o desejo que lhes confrontam", o sujeito de "confrontam" é "o desejo" (singular), então o correto seria "confronta". Em "o desejo... costumam ser incompreensíveis", o sujeito de "costumam" é novamente "o desejo" (singular), então o correto seria "costuma ser incompreensível".
(D) Correta: A frase está em ordem inversa. O sujeito de "Demanda" é "a democracia, sistema em permanente construção" (singular), e o verbo "demanda" (singular) concorda corretamente. Além disso, "contradições são inerentes" apresenta "são" (plural) concordando com "contradições" (plural).
(E) Incorreta: Na construção com "se" apassivador, o verbo concorda com o sujeito paciente. Em "já se criou rituais", "rituais" é o sujeito paciente (plural), então o verbo deveria estar no plural: "já se criaram rituais".

Fonte: FCC TRF4 2019 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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