Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2019 (nº 3)
O poeta, quanto mais individual, mais universal, pois o homem, qualquer que seja o meio e a época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos.
Se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando alunos dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta?”. A poesia é destas coisas que a gente faz mas não diz.
Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras (em vez de associações de ideias, associações de imagens; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna). Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo. Vem logo o trabalho de corte, pois noto o que estava demais. Coisas que pareciam bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema), tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema.
Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com um cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da criação. Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos dezessete anos.
(Adaptado de: QUINTANA, Mario. “Carta”. Melhores poemas. São Paulo: Global Editora, 2005, edição digital)
No contexto, o termo sublinhado pode ser corretamente substituído pelo que se encontra entre parênteses na seguinte frase:
- AVem logo o trabalho de corte, pois (quando) noto o que estava demais. (3o parágrafo)
- BEmbora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim (logo) autêntico. (1o parágrafo)
- CA poesia é destas coisas que a gente faz mas não diz (assimila). (2o parágrafo)
- DPor (Conquanto) não ter nada de mais nem nada de menos... (4o parágrafo)
- ESinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho (precário)... (4o parágrafo) (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Conceito-chave:
A equivalência de sentido busca substituir uma palavra ou expressão por outra que mantenha o significado original da frase, sem alterar a ideia principal que está sendo comunicada. É como trocar uma peça por outra idêntica em função e propósito.
Análise das alternativas:
- (A) Incorreta: "Pois" introduz uma causa ou explicação ("Vem o trabalho de corte porque noto o que estava demais"). "Quando" introduz uma ideia de tempo ("Vem o trabalho de corte no momento em que noto o que estava demais"). A relação de sentido muda de causa para tempo.
- (B) Incorreta: "Assim" refere-se à maneira ou modo de ser autêntico (ser individual e universal, como descrito anteriormente). "Logo" indica consequência ou tempo ("portanto", "imediatamente"). A armadilha aqui é que "assim" pode, em outros contextos, introduzir uma consequência, mas nesta frase ele funciona como um advérbio de modo, referindo-se à forma de autenticidade já mencionada. Trocar por "logo" alteraria o sentido para uma conclusão ou um momento, o que não é o caso.
- (C) Incorreta: "Não diz" significa que não se consegue explicar ou verbalizar facilmente o que é poesia. "Assimila" significa compreender ou absorver. Uma pessoa pode assimilar algo sem conseguir "dizer" (explicar) o que é. Os sentidos são diferentes.
- (D) Incorreta: "Por" aqui tem sentido de causa ("Porque não tem nada de mais nem nada de menos..."). "Conquanto" é uma conjunção concessiva, que significa "embora" ou "ainda que", introduzindo uma ideia de oposição ou ressalva. A substituição alteraria a relação de causa para concessão.
- (E) Correta: "Ruinzinho" é um diminutivo de "ruim", indicando algo de má qualidade, fraco, deficiente ou de pouco valor. "Precário" significa algo que é instável, frágil, deficiente, de pouca duração ou valor. No contexto de um poema, ambos os termos sugerem uma obra de qualidade duvidosa ou inferior, mantendo a ideia de um poema que não atingiu um bom nível.
Fonte: FCC TRF4 2019 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Infraestrutura em Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.