Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRE-PR 2017 (nº 5)
Brasileiros e latino-americanos fazemos constantemente a experiência do caráter postiço da vida cultural que levamos. Essa experiência tem sido um dado formador de nossa reflexão crítica desde os tempos da Independência. Ela pode ser e foi interpretada de muitas maneiras, o que faz supor que corresponda a um problema durável e de fundo.
O Papai Noel enfrentando a canícula em roupa de esquimó é um exemplo de inadequação. Da ótica de um tradicionalista, a guitarra elétrica no país do samba é outro. São exemplos muito diferentes, mas que comportam o sentimento da contradição entre a realidade nacional e o prestígio ideológico dos países que nos servem de modelo.
Tem sido observado que, a cada geração, a vida intelectual no Brasil parece recomeçar do zero. O apetite pela produção recente dos países avançados muitas vezes tem como avesso o desinteresse pelo trabalho da geração anterior e, por conseguinte, a descontinuidade da reflexão. Nos vinte anos em que tenho dado aula de literatura, por exemplo, assisti ao trânsito da crítica por uma lista impressionante de correntes. Mas é fácil observar que só raramente a passagem de uma escola a outra corresponde ao esgotamento de um projeto; no geral, ela se deve ao prestígio americano ou europeu da doutrina seguinte. Conforme notava Machado de Assis em 1879, "o influxo externo é que determina a direção do movimento".
Não é preciso ser adepto da tradição para reconhecer os inconvenientes desta praxe, a que falta a convicção das teorias, logo trocadas. Percepções e teses notáveis a respeito da cultura do país são decapitadas periodicamente, e problemas a muito custo identificados ficam sem o desdobramento que lhes poderia corresponder. O que fica de nosso desfile de concepções e métodos é pouco, já que o ritmo da mudança não dá tempo à produção amadurecida.
O inconveniente faz parte do sentimento de inadequação que foi nosso ponto de partida. Nada mais razoável, portanto, para alguém consciente do prejuízo, que passar ao polo oposto e imaginar que baste não reproduzir a tendência metropolitana para alcançar uma vida intelectual mais substantiva. A conclusão tem apoio intuitivo forte, mas é ilusória. Não basta renunciar ao empréstimo para pensar e viver de modo mais autêntico. A ideia de cópia discutida aqui opõe o nacional ao estrangeiro e o original ao imitado, oposições que são irreais e não permitem ver a parte do estrangeiro no próprio, a parte do imitado no original e também a parte original no imitado.
Uma redação alternativa para um segmento do texto, em que se mantêm a correção gramatical e a lógica, está em:
- AComo tenho dado aula de literatura fazem vinte anos, pude observar, surpreso, durante todo este período, à crítica transitando por uma lista interminável de correntes.
- BPeriodicamente, privam-se o país de percepções e teses notáveis sobre a sua cultura, cujos problemas que há muito se identificou ficam sem as soluções cabíveis.
- CSeria razoável, por conseguinte, que uma pessoa, a par do prejuízo, passasse ao polo oposto e imaginasse que deixar de reproduzir a tendência metropolitana seria suficiente para atingir uma vida intelectual mais substancial. (alternativa correta)
- DMesmo que uma pessoa não se coloque como um defensor da tradição, é possível à ela reconhecer que advém problemas de tal praxe, aos quais falta teorias que se sustentem na prática, uma vez que elas costumam ser rapidamente trocadas.
- EPorquanto sejam exemplos bem diferentes, do ponto de vista tradicionalista, tanto a imagem do Papai Noel em trajes de frio no calor, quanto à guitarra elétrica no país do samba, transmitem a sensação de desnivelamento entre a realidade e o prestígio ideológico dos modelos seguidos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Reescrever frases significa expressar a mesma ideia de um texto original usando palavras ou estruturas diferentes, mas mantendo a correção gramatical e o sentido lógico. É como traduzir uma frase para outra forma dentro da mesma língua.
- A) Incorreta: Há um erro de concordância verbal. O verbo "fazer", no sentido de tempo decorrido, é impessoal e deve permanecer no singular: "faz vinte anos" (e não "fazem vinte anos"). Além disso, a crase em "à crítica transitando" é inadequada, pois o verbo "assistir" no sentido de "ver" (no Brasil) pede objeto direto ("a crítica") ou indireto com a preposição "a" ("ao trânsito da crítica"), mas a construção com crase antes de um gerúndio ("transitanto") não se aplica aqui. (Armadilha da banca: O erro de concordância do verbo "fazer" é muito comum na fala informal, o que pode levar o aluno a não percebê-lo como um erro gramatical.)
- B) Incorreta: Apresenta erros de concordância verbal e regência. "privam-se o país" está incorreto; o correto seria "priva-se o país" (se o país for o sujeito paciente) ou "privam-se do país" (se o país for o agente). Além disso, "cujos problemas que há muito se identificou" é redundante e gramaticalmente confuso; o correto seria "cujos problemas há muito identificados" ou "os problemas que há muito se identificou". Por fim, "aos quais falta teorias" deveria ser "aos quais faltam teorias", pois o verbo "faltar" concorda com o sujeito "teorias".
- C) Correta: A alternativa reescreve o trecho "Nada mais razoável, portanto, para alguém consciente do prejuízo, que passar ao polo oposto e imaginar que baste não reproduzir a tendência metropolitana para alcançar uma vida intelectual mais substantiva" de forma gramaticalmente correta e mantendo o sentido original. As expressões "Seria razoável, por conseguinte," e "que uma pessoa, a par do prejuízo," são equivalentes a "Nada mais razoável, portanto, para alguém consciente do prejuízo,". A estrutura "passasse ao polo oposto e imaginasse que deixar de reproduzir... seria suficiente para atingir..." mantém a lógica e o significado de "passar ao polo oposto e imaginar que baste não reproduzir... para alcançar...". Os termos "substancial" e "substantiva" são sinônimos no contexto.
- D) Incorreta: Contém múltiplos erros gramaticais. A crase em "é possível à ela" está incorreta; o pronome pessoal reto "ela" não admite crase após preposição "a" (o correto seria "a ela"). Há erro de concordância verbal em "advém problemas"; o correto seria "advêm problemas" (plural). Outro erro de concordância está em "aos quais falta teorias"; o correto seria "aos quais faltam teorias".
- E) Incorreta: Apresenta um erro de crase. Na construção "tanto... quanto...", quando os termos ligados são sujeitos (a imagem do Papai Noel e a guitarra elétrica), não se usa crase. O correto seria "tanto a imagem... quanto a guitarra elétrica".
Fonte: FCC TRE-PR 2017 Conhecimentos Comuns (Técnico Judiciário) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.