Questão nº 19
Questão de Língua Portuguesa · FCC TCE-GO 2022 (nº 19)
Atenção: Para responder às questões de números 15 a 20, baseie-se no texto abaixo.
Escravo da razão
O grande pensador Montaigne (1533-1592) foi um conservador, mas nada teve de rígido ou estreito, muito menos de dogmático. Por temperamento e razão foi bem o contrário de um revolucionário; certamente faltaram-lhe a fé e a energia de um homem de ação, o idealismo e a vontade. Seu conservadorismo pode ser visto, sob certos aspectos, como o que no século XIX viria a ser chamado de liberalismo. Em sua concepção política o indivíduo é deixado livre dentro do quadro das leis e procura tornar tão leve quanto possível a autoridade do Estado.
Para Montaigne, o melhor governo seria o que menos se faz sentir e assegura a ordem pública sem pôr em perigo a vida privada, e sem pretender orientar os espíritos. Um tal tipo de governo é o que convém a homens esclarecidos, conscientes de seus direitos e deveres, obedientes às leis, homens que agem não por temor, mas por vontade própria.
Escravo da razão, Montaigne transmitiu essa servidão à filosofia que lhe sucedeu e marcou uma linha de desenvolvimento do pensamento ocidental. Com ela, destruiu verdades dogmáticas e mostrou que todas se contradizem, mas deixou aberta a possibilidade de se concluir que a própria contradição possa encerrar uma verdade.
Os tempos verbais estão adequadamente articulados na frase:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 15, questão nº 16, questão nº 17, questão nº 18, questão nº 20.
- AAo filósofo nunca lhe faltará coragem para testar a força da dialética diante das contradições que se ofereçam ao seu pensamento. (alternativa correta)
- BAo tempo de Montaigne, ninguém poderia supor que ele exerça influência sobre os liberais do século XIX.
- CNo caso de que ache vicioso o pensamento de alguém, Montaigne logo identificaria as contradições nele presentes.
- DUm verdadeiro filósofo, se lhe convier servir aos ditames da razão, não terá hesitado em enfrentar contradições do pensamento.
- EAs verdades dogmáticas que Montaigne teria a enfrentar certamente provocarão sua reação dialética em face das contradições.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A adequada articulação dos tempos verbais refere-se à escolha correta e lógica dos verbos para expressar a sequência temporal e a relação entre as ações em uma frase, garantindo coerência gramatical e de sentido.
(A) Correta: A frase "Ao filósofo nunca lhe faltará coragem para testar a força da dialética diante das contradições que se ofereçam ao seu pensamento" apresenta uma articulação correta. "Faltará" (futuro do presente do indicativo) expressa uma certeza futura. "Ofereçam" (presente do subjuntivo) é usado para indicar uma possibilidade ou condição futura em relação à ação principal, que é o "faltará". Essa combinação é gramaticalmente aceitável e coerente.
(B) Incorreta: A combinação "poderia supor" (futuro do pretérito) com "exerça" (presente do subjuntivo) é inadequada. Se a suposição é no passado ("Ao tempo de Montaigne, ninguém poderia supor"), a influência esperada no futuro daquele passado deveria ser "exerceria" (futuro do pretérito), e não "exerça".
(C) Incorreta: A frase "No caso de que ache (presente do subjuntivo) vicioso o pensamento de alguém, Montaigne logo identificaria (futuro do pretérito) as contradições nele presentes" apresenta uma articulação menos comum e ideal. Para uma condição expressa pelo presente do subjuntivo ("ache"), a consequência esperada seria no futuro do presente ("identificará"). Se a consequência é no futuro do pretérito ("identificaria"), a condição deveria estar no pretérito imperfeito do subjuntivo ("achasse"). Esta é a armadilha da banca, pois a construção pode parecer plausível, mas não segue as combinações mais padronizadas e gramaticalmente robustas para períodos condicionais.
(D) Incorreta: A combinação "se lhe convier" (futuro do subjuntivo) com "não terá hesitado" (futuro do presente composto) é inadequada. O futuro do subjuntivo indica uma condição futura, e a consequência deveria ser uma ação futura simples ("não hesitará") ou uma obrigação futura. "Não terá hesitado" indica uma ação que estará concluída em um ponto futuro, o que não se encaixa naturalmente como consequência direta de uma condição futura simples.
(E) Incorreta: A frase "As verdades dogmáticas que Montaigne teria a enfrentar (futuro do pretérito ou locução verbal com futuro do pretérito) certamente provocarão (futuro do presente) sua reação dialética em face das contradições" apresenta um claro descompasso temporal. "Teria a enfrentar" remete a uma ação hipotética ou futura em relação a um passado. "Provocarão" indica uma certeza no futuro. Não há uma relação lógica ou gramatical que justifique essa combinação de tempos.
Fonte: FCC TCE-GO 2022 Analista de Controle Externo - Contabilidade (Caderno Tipo 3). Reproduzida para fins de estudo.