Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TCE-GO 2022 (nº 4)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 8, baseie-se no texto abaixo.
O que será da escrita sem solidão?
Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. "A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada", ela diz. "Aquilo sem o qual já não vemos nada." Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.
Depreende-se da leitura do último parágrafo que, diante da agitação de suas filhas, o autor
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8.
- Apercebeu que aquela perturbação, uma vez afastada, dava lugar à solidão mais produtiva.
- Bpassou a considerar sua antiga necessidade de solidão como um simples capricho de escritor frustrado.
- Cteve que considerar a força dos elementos externos que passaram a integrar sua produção de escritor. (alternativa correta)
- Dse deu conta de que escrever passaria a ser algo inviável, na falta de um pleno recolhimento.
- Ese viu como um pai cuja indiferença aos apelos das crianças revelava sua maturidade como criador.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Para compreender um texto, você precisa ir além do que está escrito literalmente, buscando as ideias implícitas e as conclusões que podem ser tiradas a partir das informações apresentadas pelo autor. É como ler nas entrelinhas para entender o que o autor quer comunicar.
(A) Incorreta: O texto afirma o contrário: "Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos", mostrando que a perturbação não se afasta completamente.
(B) Incorreta: O autor não expressa que sua antiga necessidade era um capricho; ele apenas constata que as circunstâncias mudaram e que ele se adaptou a essa nova realidade, sem desqualificar seu passado.
(C) Correta: A frase "tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével" indica claramente que a presença das filhas e a ausência de solidão (elementos externos) agora fazem parte, de forma permanente, de sua produção literária.
(D) Incorreta: O autor continua escrevendo, mesmo que o processo tenha se tornado "cruel" e sem recolhimento; ele não diz que se tornou inviável, mas sim transformado.
(E) Incorreta: O autor descreve o ato de ignorar a filha como "cruel", o que sugere um conflito e desconforto, e não uma "maturidade" ou indiferença positiva.
Fonte: FCC TCE-GO 2022 Analista de Controle Externo - Contabilidade (Caderno Tipo 3). Reproduzida para fins de estudo.