Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TCE-GO 2022 (nº 5)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 8, baseie-se no texto abaixo.
O que será da escrita sem solidão?
Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. "A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada", ela diz. "Aquilo sem o qual já não vemos nada." Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.
No segmento sublinhado, o verbo está na voz passiva e se encontra corretamente flexionado em:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8.
- AEle foi demovido de sua obsessão por estar só pela ação das suas filhas. (alternativa correta)
- BEle não se acha capacitado como escritor, quando não está isolado de tudo e de todos.
- CCaso ele não satisfazer seu desejo de estar só, não se animará a escrever.
- DEle já havia se convicto de escrever mesmo na presença das crianças ruidosas.
- EForam muitos os momentos de solidão que ele havia transposto para poder escrever.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A voz passiva ocorre quando o sujeito da frase não pratica a ação, mas a sofre, sendo o alvo do verbo. Geralmente é formada por um verbo auxiliar (como "ser" ou "estar") seguido do particípio do verbo principal.
- (A) Correta: O verbo "foi demovido" está na voz passiva analítica, pois o sujeito "Ele" sofre a ação de "demover", e a estrutura (verbo "ser" + particípio) está correta e bem flexionada.
- (B) Incorreta: A construção "se acha capacitado" indica voz reflexiva ("acha a si mesmo"), não voz passiva, embora a flexão esteja correta para a voz reflexiva.
- (C) Incorreta: O verbo "satisfazer" está na voz ativa e a flexão está incorreta para o futuro do subjuntivo; o correto seria "satisfaça" ou "satisfizer".
- (D) Incorreta: A construção "havia se convicto" está gramaticalmente incorreta; o correto seria "havia se convencido" (voz reflexiva).
- (E) Incorreta: O verbo "havia transposto" está na voz ativa, pois o sujeito "ele" pratica a ação de "transpor", e não a sofre.
Fonte: FCC TCE-GO 2022 Analista de Controle Externo - Contabilidade (Caderno Tipo 3). Reproduzida para fins de estudo.