Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TCE-GO 2022 (nº 8)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 8, baseie-se no texto abaixo.
O que será da escrita sem solidão?
Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. "A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada", ela diz. "Aquilo sem o qual já não vemos nada." Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.
Está correta a nova redação de um segmento do texto em
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 7.
- Adesisti de estar só = renunciei a estar só (alternativa correta)
- Bainda é capaz de estar só = ainda está apto à ser só
- Cnão me refiro à penúria = não me atenho pela penúria
- Duma busca por espaços = uma demanda aos espaços
- Eespaços isolados do alvoroço = espaços alheios no alvoroço
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Sinonímia é a relação entre palavras ou expressões que possuem significados semelhantes ou idênticos, permitindo que uma seja substituída pela outra em um determinado contexto sem alterar o sentido original da frase.
- (A) Correta: "desisti de estar só" e "renunciei a estar só" são sinônimos perfeitos no contexto. "Desistir" significa abrir mão, abandonar uma intenção ou ação, o que é exatamente o sentido de "renunciar" (abrir mão de algo, desistir de um direito ou pretensão).
- (B) Incorreta: Embora "capaz de" e "apto a" tenham sentidos próximos de habilidade ou condição, a construção "apto à ser só" está gramaticalmente incorreta devido ao uso da crase antes do verbo no infinitivo "ser". A forma correta seria "apto a ser só". Essa é a armadilha da banca, que testa não apenas o sentido, mas também a correção gramatical.
- (C) Incorreta: "Não me refiro à penúria" significa que o autor não está mencionando ou tratando da penúria. Já "não me atenho pela penúria" significa que ele não se prende ou se limita pela penúria, alterando o sentido original da frase. Além disso, "ater-se" geralmente pede a preposição "a" ou "em".
- (D) Incorreta: "Uma busca por espaços" indica o ato de procurar por espaços. "Uma demanda aos espaços" sugere uma exigência ou necessidade direcionada aos espaços, o que não corresponde ao sentido de "busca" e a preposição "aos" não se encaixa adequadamente.
- (E) Incorreta: "Espaços isolados do alvoroço" significa espaços separados, distantes do tumulto. "Espaços alheios no alvoroço" significa espaços que são estranhos, indiferentes ou não pertencentes dentro do alvoroço, o que muda completamente o sentido de separação física.
Fonte: FCC TCE-GO 2022 Analista de Controle Externo - Contabilidade (Caderno Tipo 3). Reproduzida para fins de estudo.