Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2022 (nº 10)
FCC2022Comum Professor BLíngua Portuguesa
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- Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
- Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu – e sua falta é mais importante para mim do que as reformas do ministério.
- Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
- O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
- Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio – cor incomum em gatos comuns – e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
- Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei, dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
- Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, sim, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
- Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato "funciona" em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
- Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
(ANDRADE, Carlos Drummond. Cadeira de balanço. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
O verbo em negrito deve sua flexão ao termo sublinhado em:
- AFalta-lhes a nota grave e macia de Inácio (8º parágrafo). (alternativa correta)
- BÀ falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato (3º parágrafo).
- CSeria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação (6º parágrafo).
- DO leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna (1º parágrafo).
- EPoderia botar anúncio no jornal (9º parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A concordância verbal é a regra gramatical que exige que o verbo (a ação) mude sua forma para combinar em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) com o seu sujeito (quem pratica ou sofre a ação).
- (A) Correta: O verbo "Falta" está no singular porque o seu sujeito é "a nota grave e macia de Inácio", que também está no singular. O termo "lhes" é um objeto indireto (a quem falta?), não o sujeito.
- (B) Incorreta: O verbo "há" (do verbo "haver" com sentido de existir) é impersonal e permanece sempre no singular, independentemente do que "existe". O termo sublinhado "indivíduos que se consolam comendo carne de gato" é o objeto direto, não o sujeito. Esta é a armadilha da banca: muitos confundem o objeto de um verbo impessoal com o sujeito.
- (C) Incorreta: O verbo "Seria" tem como sujeito a oração "apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação", que é considerada singular. O termo sublinhado "iníquo" é um predicativo do sujeito, um adjetivo que caracteriza o sujeito, não o próprio sujeito.
- (D) Incorreta: O verbo "faça" está no modo imperativo e tem como sujeito oculto "você" (referindo-se a "O leitor"). O termo sublinhado "o obséquio de mudar de coluna" é o objeto direto do verbo "faça" (faça o quê?).
- (E) Incorreta: O verbo "Poderia" tem como sujeito oculto "Eu" (o narrador). O termo sublinhado "anúncio" é o objeto direto do verbo "botar" (botar o quê?).
Fonte: FCC SEDU-ES 2022 Conhecimentos Comuns (Professor B) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.