Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2022 (nº 3)
FCC2022Comum Professor BLíngua Portuguesa
Gabarito: Bver comentário ↓
- Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
- Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu – e sua falta é mais importante para mim do que as reformas do ministério.
- Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
- O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
- Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio – cor incomum em gatos comuns – e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
- Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei, dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
- Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, sim, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
- Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato "funciona" em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
- Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
(ANDRADE, Carlos Drummond. Cadeira de balanço. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
Uma característica recorrente do gênero "crônica" que pode ser observada no texto é
- Aa finalidade pedagógica.
- Bo tom informal. (alternativa correta)
- Co caráter prescritivo.
- Do discurso moralizante.
- Ea linguagem rebuscada.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A crônica é um gênero textual que se caracteriza por ser um registro leve e pessoal de fatos do cotidiano, muitas vezes com um toque de subjetividade e reflexão.
- (A) Incorreta: A crônica não tem como principal objetivo ensinar ou instruir; ela foca na observação e reflexão pessoal sobre o dia a dia.
- (B) Correta: O texto apresenta um tom informal ao usar uma linguagem próxima do leitor, com expressões coloquiais ("me brota espontaneamente da máquina", "faça o obséquio", "botar anúncio"), referências pessoais ("salvo a mim mesmo", "minha máquina"), e um estilo conversacional que estabelece uma intimidade com quem lê, como se o autor estivesse compartilhando uma experiência ou um pensamento com um amigo.
- (C) Incorreta: O texto não estabelece regras, normas ou instruções a serem seguidas; ele narra e reflete sobre um acontecimento.
- (D) Incorreta: Embora haja uma breve menção à "desonestidade" de maltratar animais, o propósito central do texto não é transmitir uma lição de moral, mas sim expressar a dor e a reflexão do autor sobre a perda de seu gato. A armadilha aqui é confundir uma observação pontual com o objetivo principal do texto.
- (E) Incorreta: A linguagem utilizada é clara, direta e acessível, sem excesso de termos complexos ou construções frasais elaboradas que a tornariam rebuscada.
Fonte: FCC SEDU-ES 2022 Conhecimentos Comuns (Professor B) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.