Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2022 (nº 5)
- Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
- Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu – e sua falta é mais importante para mim do que as reformas do ministério.
- Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
- O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
- Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio – cor incomum em gatos comuns – e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
- Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei, dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
- Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, sim, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
- Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato "funciona" em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
- Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
(ANDRADE, Carlos Drummond. Cadeira de balanço. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
De acordo com o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa, os dêiticos são "expressões linguísticas que se referem à situação em que o enunciado é produzido, ao momento da enunciação e aos atores do discurso". Por exemplo, "eu" designa a pessoa que fala "eu". Expressões como "aqui", "agora" devem ser interpretadas em função de onde e em que momento se encontra o locutor, quando diz "aqui" e "agora".
Verifica-se a ocorrência de dêitico que se refere ao momento da enunciação no seguinte trecho:
- AUm jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. (1º parágrafo)
- BMas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo (1º parágrafo). (alternativa correta)
- CMas Inácio desapareceu – e sua falta é mais importante para mim do que as reformas do ministério (2º parágrafo).
- DDizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros (3º parágrafo).
- EÀ falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra (3º parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Dêixis são palavras ou expressões que só podem ser entendidas completamente se soubermos quem fala, onde e quando a fala acontece. Um dêitico que se refere ao momento da enunciação é uma palavra que aponta diretamente para o "agora", o instante em que a frase está sendo dita ou escrita.
- (A) Incorreta: Este trecho descreve uma característica geral de um jornal, sem nenhuma palavra que aponte para o momento específico em que o autor está escrevendo.
- (B) Correta: A palavra "hoje" é um dêitico temporal claro, pois indica o dia exato em que o autor está produzindo o texto, ou seja, o momento da enunciação.
- (C) Incorreta: Embora os verbos "desapareceu" (passado) e "é" (presente) marquem tempo, a questão busca uma expressão linguística que aponte explicitamente para o "agora" da enunciação, como "hoje", "agora", "neste momento". "Desapareceu" refere-se a um evento anterior, e "é" descreve um estado presente, mas não é um dêitico temporal tão direto quanto "hoje".
- (D) Incorreta: O verbo "Dizia-se" está no passado, referindo-se a uma crença anterior, e não ao momento atual da escrita. A palavra "Agora" que aparece no parágrafo 3 ("Agora ouço dizer...") seria um dêitico temporal, mas não está incluída no trecho da alternativa D. Esta é uma pegadinha, pois o aluno pode ver "Agora" no parágrafo e associar, mas a alternativa só cita a primeira parte.
- (E) Incorreta: Este trecho descreve uma situação hipotética ou geral, sem nenhuma palavra que aponte para o momento específico em que o autor está escrevendo.
Fonte: FCC SEDU-ES 2022 Conhecimentos Comuns (Professor B) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.