Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2022 (nº 2)
FCC2022Comum Professor BLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓
- Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
- Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu – e sua falta é mais importante para mim do que as reformas do ministério.
- Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
- O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
- Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio – cor incomum em gatos comuns – e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
- Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei, dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
- Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, sim, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
- Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato "funciona" em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
- Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
(ANDRADE, Carlos Drummond. Cadeira de balanço. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
O cronista refere-se de forma irônica a um eventual desinteresse de seus leitores no seguinte trecho:
- APoderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos (9º parágrafo).
- BAgora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos (3º parágrafo).
- CNão é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido (4º parágrafo).
- DLivros e papéis, sim, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual (7º parágrafo).
- ESe tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores (8º parágrafo). (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A ironia acontece quando dizemos algo, mas queremos comunicar o oposto do que as palavras significam literalmente, geralmente para fazer uma crítica, um humor ou um comentário sutil.
- (A) Incorreta: Esta frase expressa um ceticismo do autor sobre o interesse geral das pessoas em procurar gatos perdidos, não uma ironia sobre o desinteresse dos leitores em seu próprio texto.
- (B) Incorreta: Esta é uma constatação ou um relato de um boato sobre a causa do sumiço de gatos, sem qualquer intenção irônica.
- (C) Incorreta: O autor está declarando seu foco pessoal e específico em Inácio, distinguindo-o de uma preocupação sociológica mais ampla. Não há ironia aqui.
- (D) Incorreta: Esta é uma hipérbole ou uma personificação poética, atribuindo ao gato um papel exagerado e divertido na vida intelectual. Não é uma ironia sobre o desinteresse dos leitores.
- (E) Correta: O cronista usa a ironia ao sugerir que o "sono profundo" de Inácio enquanto ele escrevia "antecipava a reação provável dos leitores". Ele está ironicamente insinuando que seu texto poderia ser tão desinteressante a ponto de fazer os leitores dormirem, assim como o gato. É uma forma de autocrítica humorística e uma antecipação do desinteresse do público. A armadilha aqui é não perceber que o "sono profundo" do gato não é apenas uma observação, mas uma metáfora irônica para a reação dos leitores, subvertendo a expectativa de que o texto seria envolvente.
Fonte: FCC SEDU-ES 2022 Conhecimentos Comuns (Professor B) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.