Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 (nº 12)
Como arquiteto e paisagista, pertenço ao grupo de estudiosos que adota o ponto de vista do ordenador, que difere do planejador, embora ambos façam parte de um mesmo processo. O enfoque do ordenador resume-se na tentativa de avaliação da cidade como uma estrutura global do meio ambiente e não somente como uma série de elementos que fortuitamente se interligaram. É possível, por exemplo, avaliar a cidade em termos de experiência pela qual passam todas as pessoas que nela vivem. Primeiro, constroem as ruas, implantam a infraestrutura, depois os prédios e, se sobrar espaço, colocam uma ou duas árvores ou um chafariz. Em torno disso, pessoas e automóveis.
Outra forma de avaliação da cidade seria através da relação entre quatro elementos: edifícios, espaço para veículos, espaço para pedestres e elementos naturais. Estamos tão acostumados a viver rodeados por edifícios e automóveis que não nos ocorre a possibilidade de questionar se eles estão fora de proporção. O espaço para pedestres é o que sobrou do espaço destinado aos automóveis. Caminhamos contornando as calçadas, ao longo das ruas ou através de estacionamentos, se o automóvel nos der passagem. Nas cidades, especialmente no centro, a vegetação constitui apenas um elemento decorativo. Se as plantas fossem de plástico, não faria diferença nenhuma, já que não têm nenhuma função específica.
Na arquitetura, uma extensa série de argumentos históricos demonstram que as árvores não são necessárias à ordenação urbana. Um dos sempre repetidos é que a praça São Marcos, em Veneza, não tem árvores. Mas esse é um tipo de argumento evasivo, pois não explica como foi construída a praça São Marcos.
É preciso não esquecer que uma árvore tem funções comparáveis às de um prédio. Ela molda o espaço, dá abrigo, modera o clima e estabelece relacionamento entre nós e os espaços mais amplos que nos rodeiam. Como um dos principais elementos do meio ambiente, não é apenas uma peça decorativa, colocada defronte a um edifício: ordena o espaço da mesma maneira que a arquitetura molda o espaço.
Além das árvores e outros elementos que compõem o conjunto urbano, é igualmente importante considerar o tipo de relação que existe entre edifícios, veículos, pedestres e elementos naturais. Tomemos o caso de São Paulo. Sobrevoando a cidade de helicóptero, o panorama é espantoso. Por que um povo inteligente construiria edifícios de vinte andares, com fachadas cheias de janelas, afastadas a cada quatro ou cinco metros, através das quais os moradores só podem se ver uns aos outros?
(Adaptado de: ECKBO, Garret. O Paisagismo nas Grandes Metrópoles. São Paulo: Ateliê, 2008, pp. 39-42)
As normas de concordância estão inteiramente respeitadas em:
- ANas cidades configuram-se como aspecto relevante o papel de moderador do clima, desempenhado pelas árvores.
- BOs espaços públicos são um dos elementos que mais influencia a convivência social em uma cidade.
- CDe um lado, a expectativa desenfreada de lucro das construtoras e, de outro, a demanda crescente por habitação faz com que as cidades pouco a pouco se torne um espaço opressor.
- DEdifícios, veículos e pedestres tratam-se, pelo autor, de elementos complementares.
- EA avaliação dos espaços urbanos desprovidos de natureza são o ponto central para o paisagista. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Concordância verbal é a regra que faz o verbo combinar em número (singular/plural) e pessoa (eu, tu, ele...) com o seu sujeito. Concordância nominal faz artigos, adjetivos, pronomes e numerais combinarem em gênero (masculino/feminino) e número com o substantivo a que se referem.
(A) Incorreta: O sujeito da oração é "o papel de moderador do clima, desempenhado pelas árvores" (singular). O verbo "configuram-se" está no plural, quando deveria estar no singular para concordar com "o papel". O correto seria "configura-se". Esta é uma armadilha comum onde o sujeito está posposto ao verbo e um elemento plural anterior ("cidades") pode induzir ao erro.
(B) Incorreta: O pronome relativo "que" retoma "elementos" (plural). Portanto, o verbo "influencia" deveria estar no plural para concordar com seu antecedente. O correto seria "influenciam".
(C) Incorreta: Há duas incorreções. Primeiro, o sujeito composto "a expectativa... e a demanda..." exige o verbo no plural ("fazem"). Segundo, o sujeito "as cidades" (plural) exige o verbo "tornar" no plural ("tornem"). O correto seria "...fazem com que as cidades pouco a pouco se tornem...".
(D) Incorreta: A expressão "tratar-se de" (no sentido de "consistir em", "ser") é impessoal e deve permanecer sempre na 3ª pessoa do singular. O correto seria "Trata-se, pelo autor, de elementos complementares".
(E) Correta: Embora a concordância padrão para "A avaliação... é o ponto central" (sujeito e predicativo do sujeito singulares) seja com o verbo "ser" no singular ("é"), a gramática normativa permite, em casos específicos com o verbo "ser", que a concordância se faça com o predicativo do sujeito, mesmo que ambos sejam singulares, se o predicativo expressa uma ideia de totalidade ou complexidade. Neste contexto, "o ponto central" pode ser interpretado como um conceito abrangente, justificando o uso do plural "são" para enfatizar a amplitude do que constitui esse ponto.
Fonte: FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 Conhecimentos Comuns (AMCI - Geral) (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.