Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC PGE-MT 2016 (nº 5)
Por esta, as casas de aposta britânicas não esperavam: o cantor Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2016. Seria um sinal de que as já questionáveis fronteiras entre a cultura pop e a chamada alta literatura estão se desfazendo? Deixemos essa questão a quem interessa: os círculos acadêmicos obcecados por categorizar os gêneros do discurso.
Ao mundo hispano-americano, no entanto, cabe uma lembrança oportuna: a importância dos trovadores para nossa formação cultural e sua atualidade nem sempre reconhecida.
Sim, houve um tempo em que poesia e música eram indissociáveis. A literatura na Península Ibérica nasceu com o canto dos trovadores da Idade Média, menestréis ambulantes ou abrigados nas cortes da Galícia e do norte de Portugal. Eles construíram um vigoroso retrato do amor medieval e deram lugar à voz feminina nas suas composições. Foram eles também que denunciaram as mazelas daquela sociedade em suas cantigas de escárnio e maldizer.
Soterrados por séculos de esquecimento, os trovadores sofreram críticas pedantes, que os consideravam repetitivos, vulgares... populares demais, enfim. Houve uma crueldade especial por parte dos eruditos até sua eventual redescoberta pela professora Carolina Michaelis de Vasconcelos, já no início do século XX. Vale notar que a lacuna de percepção que os menosprezou por 600 anos tem uma estreita relação com o esnobismo acadêmico que recusa às letras de canção o status de nobreza da poesia.
Para os brasileiros, nada disso faz sentido. Aí esteve Vinícius de Moraes, que não nos deixa mentir. Quando perguntaram a Manuel Bandeira qual o mais belo verso já escrito no Brasil, o poeta pernambucano respondeu: “Tu pisavas nos astros, distraída”, decassílabo de Orestes Barbosa na letra de “Chão de estrelas”.
Mesmo assim, entre nós, as manchetes denunciam a surpresa diante do compositor nobelizado. Como se não fosse ele sério o suficiente. Como se ele fosse produto de outro mundo... popular demais, enfim.
Seria um sinal de que as já questionáveis fronteiras entre a cultura pop e a chamada alta literatura estão se desfazendo? Deixemos essa questão a quem interessa: os círculos acadêmicos obcecados por categorizar os gêneros do discurso.
Com o comentário sublinhado, o autor
- Arelativiza a importância prática da distinção, feita por alguns acadêmicos, entre cultura pop e a dita alta literatura. (alternativa correta)
- Bencarece a relevância da questão proposta, alçando-a a tema que deve ser discutido entre os acadêmicos.
- Cconclui que a discussão acerca da cultura pop e da chamada alta literatura demanda formação acadêmica específica.
- Dpropõe uma resposta negativa para a questão apresentada, respaldando-se nos juízos de certos acadêmicos.
- Erevela desconhecer a resposta para a pergunta feita, mas dirige o leitor à discussão proposta pela academia.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Quando um autor direciona uma discussão para um grupo específico, usando uma linguagem que sugere que essa discussão é uma obsessão ou de interesse limitado a esse grupo, ele está diminuindo a importância prática ou a relevância universal do tema.
(A) Correta: O autor relativiza a importância prática da distinção ao delegar a questão aos "círculos acadêmicos obcecados por categorizar os gêneros do discurso", sugerindo que essa categorização é uma preocupação específica e talvez excessiva desses grupos, não essencial para a compreensão geral.
(B) Incorreta: O autor não encarece a relevância; pelo contrário, ao usar o termo "obcecados", ele minimiza a importância da questão para o público em geral, tratando-a como uma preocupação de nicho. Esta é a armadilha, pois, embora a questão seja direcionada a acadêmicos, o tom é de desqualificação, não de elevação.
(C) Incorreta: O texto não conclui que a discussão demanda formação acadêmica específica. A frase "obcecados por categorizar" tem um tom crítico, indicando que a discussão é uma obsessão de alguns acadêmicos, e não uma necessidade para o entendimento.
(D) Incorreta: O autor não propõe uma resposta negativa; ele simplesmente evita a discussão, delegando-a. Além disso, ele não se respalda nos juízos acadêmicos, mas sim os descreve de forma que sugere uma crítica à sua obsessão por categorização.
(E) Incorreta: O autor não revela desconhecer a resposta. Ele opta por não se aprofundar na questão, indicando que ela é de interesse de um grupo específico, e não necessariamente por ignorância. Ele não convida o leitor a essa discussão, mas a afasta do foco principal do texto.
Fonte: FCC PGE-MT 2016 Analista – PGE - Bacharel em Direito (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.