Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC PGE-MT 2016 (nº 4)
Por esta, as casas de aposta britânicas não esperavam: o cantor Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2016. Seria um sinal de que as já questionáveis fronteiras entre a cultura pop e a chamada alta literatura estão se desfazendo? Deixemos essa questão a quem interessa: os círculos acadêmicos obcecados por categorizar os gêneros do discurso.
Ao mundo hispano-americano, no entanto, cabe uma lembrança oportuna: a importância dos trovadores para nossa formação cultural e sua atualidade nem sempre reconhecida.
Sim, houve um tempo em que poesia e música eram indissociáveis. A literatura na Península Ibérica nasceu com o canto dos trovadores da Idade Média, menestréis ambulantes ou abrigados nas cortes da Galícia e do norte de Portugal. Eles construíram um vigoroso retrato do amor medieval e deram lugar à voz feminina nas suas composições. Foram eles também que denunciaram as mazelas daquela sociedade em suas cantigas de escárnio e maldizer.
Soterrados por séculos de esquecimento, os trovadores sofreram críticas pedantes, que os consideravam repetitivos, vulgares... populares demais, enfim. Houve uma crueldade especial por parte dos eruditos até sua eventual redescoberta pela professora Carolina Michaelis de Vasconcelos, já no início do século XX. Vale notar que a lacuna de percepção que os menosprezou por 600 anos tem uma estreita relação com o esnobismo acadêmico que recusa às letras de canção o status de nobreza da poesia.
Para os brasileiros, nada disso faz sentido. Aí esteve Vinícius de Moraes, que não nos deixa mentir. Quando perguntaram a Manuel Bandeira qual o mais belo verso já escrito no Brasil, o poeta pernambucano respondeu: “Tu pisavas nos astros, distraída”, decassílabo de Orestes Barbosa na letra de “Chão de estrelas”.
Mesmo assim, entre nós, as manchetes denunciam a surpresa diante do compositor nobelizado. Como se não fosse ele sério o suficiente. Como se ele fosse produto de outro mundo... popular demais, enfim.
O texto apresenta como meta central
- Adiscorrer sobre a associação acentuada entre música e poesia no período trovadoresco.
- Bapresentar as influências que os trovadores exerceram sobre os letristas modernos.
- Ccriticar o desprezo que alguns acadêmicos conferem às composições não eruditas. (alternativa correta)
- Ddestacar a importância do trabalho de Carolina Michaelis de Vasconcelos para a literatura.
- Efazer uma apologia da obra de artistas que se dedicam duplamente à poesia e à letra de canções.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A ideia central de um texto é a mensagem principal que o autor deseja transmitir, o ponto fundamental em torno do qual todo o conteúdo se organiza. É o tema mais importante e o propósito principal da escrita.
- (A) Incorreta: Embora o texto discorra sobre a associação entre música e poesia no período trovadoresco (parágrafos 2 e 3), essa discussão serve como um exemplo histórico para fundamentar a crítica central, não sendo o objetivo principal do texto.
- (B) Incorreta: O texto menciona a aceitação de letras de canção como poesia no Brasil (Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira), mas não se aprofunda nas influências diretas dos trovadores sobre letristas modernos. Essa é uma observação secundária.
- (C) Correta: O texto inicia questionando as fronteiras entre cultura pop e alta literatura devido ao Nobel de Dylan, e rapidamente direciona a crítica aos "círculos acadêmicos obcecados por categorizar". Em seguida, usa a história dos trovadores, que foram "soterrados por séculos de esquecimento" e criticados como "populares demais" por "eruditos", para ilustrar o "esnobismo acadêmico que recusa às letras de canção o status de nobreza da poesia". A surpresa com o Nobel de Dylan ("Como se não fosse ele sério o suficiente... popular demais") fecha o ciclo, reforçando a crítica ao desprezo acadêmico por composições não eruditas.
- (D) Incorreta: O trabalho de Carolina Michaelis de Vasconcelos é mencionado brevemente como a responsável pela redescoberta dos trovadores, mas essa informação é um detalhe dentro da argumentação maior sobre o desprezo acadêmico, não a meta central do texto.
- (E) Incorreta: O texto, de fato, valoriza artistas que combinam poesia e música (Dylan, trovadores, Vinícius), mas o propósito principal não é apenas elogiá-los. A valorização desses artistas é um contraponto à crítica central, que é o desprezo e o esnobismo acadêmico que eles enfrentam ou enfrentaram. A meta central é a crítica, não a apologia em si.
Fonte: FCC PGE-MT 2016 Analista – PGE - Bacharel em Direito (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.