Questão nº 20
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPE-AM 2024 (nº 20)
O caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada veio um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando; para lá de três toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada — fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras. (1º parágrafo)
Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais — no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso — pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e atento e cobiçoso dos comedores de carne. (2º parágrafo)
A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro — que ignomínia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto vai para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da praia, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas. (3º parágrafo)
(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)
O verbo em negrito deve sua flexão à expressão sublinhada em:
- Ahouve mão que abriu a porta da capoeira
- BCortou a areia deixando um rastro longo
- CNão sei se os presentes compreenderam
- Dno meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho (alternativa correta)
- Evoltou a cabeça ainda assustada
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A concordância verbal se dá com o sujeito da oração. O sujeito é quem pratica ou sofre a ação expressa pelo verbo. Em português, o verbo geralmente concorda em número (singular/plural) e pessoa (1ª, 2ª, 3ª) com o seu sujeito.
(A) Incorreta: O verbo "houve" está no singular porque o sujeito é "ninguém". A expressão "mão que abriu a porta da capoeira" é um complemento e não o sujeito de "houve".
(B) Incorreta: O verbo "cortou" está no singular porque o sujeito é "Ela" (a tartaruga). A expressão "a areia" é o objeto direto do verbo.
(C) Incorreta: O verbo "sei" está na 1ª pessoa do singular porque o sujeito é "Eu" (implícito). A expressão "se os presentes compreenderam" é uma oração subordinada substantiva objetiva direta, que funciona como complemento do verbo "sei".
(D) Correta: O verbo "apareceu" está no singular porque o sujeito é "um bicho estranho". A expressão "no meio daquele quase nada" é um adjunto adverbial de lugar, que indica onde o bicho apareceu, e não o sujeito. A armadilha da banca aqui é fazer o aluno pensar que "quase nada" é o sujeito, mas a inversão da ordem da frase (sujeito depois do verbo) é comum e o verbo concorda com o núcleo do sujeito, que é "bicho".
(E) Incorreta: O verbo "voltou" está no singular porque o sujeito é "Ela" (a tartaruga). A expressão "a cabeça" é o objeto direto do verbo.
Fonte: FCC MPE-AM 2024 Agente de Apoio - Especialidade Administrativo (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.