Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPE-AM 2024 (nº 2)
Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. Vaidoso, na forma humana leva sempre um chapéu na cabeça, supostamente para cobrir o orifício reminiscente da existência aquática. Pode não ser verdade, mas serve como justificação para barrigas inexplicáveis pela ausência de marido. Bem ao modo da natureza social da Amazônia, onde bichos costumam virar gente, e vice-versa. O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval. (1º parágrafo)
Mitos e causos à parte, não é que a ciência revela o que os amazônidas já sabiam? Botos machos são mesmo galantes. Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete — não de flores, mas de plantas aquáticas. Essa imitação barata do comportamento humano é pesquisada por Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Tony Martin, do Serviço Antártico Britânico. Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se torne público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist. (2º parágrafo)
Silva e Martin estudaram botos-tucuxis por três anos na região amazônica. Avistaram mais de 6.000 grupos em Mamirauá, Tefé (oeste do Estado do Amazonas). Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico, como um maço de ervas ou um pedaço de pau. Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. Em português claro, o comportamento seria uma forma de exibicionismo — no bom sentido. Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas. (3º parágrafo)
O curioso é encontrar o expediente só em alguns grupos isolados desses cetáceos. O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura. Não faz muito tempo, essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos. "Cultura", afinal, sempre foi entendida como o oposto de "natureza". A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida com as sucessivas documentações, por vários grupos de pesquisa, do uso de ferramentas por outros primatas. Pelo visto, o boto está prestes a subir na escala social. (4º parágrafo)
(Adaptado de: LEITE, Marcelo. Ciência: use com cuidado. Campinas: Editora da Unicamp, 2014)
De acordo com Marcelo Leite,
- Aalguns grupos de botos parecem estar incorporando a cultura humana.
- Bas fronteiras entre cultura e natureza não mais se aplicam aos botos.
- Ca distinção entre cultura e natureza mostra-se cada vez mais necessária.
- Da noção de cultura parece não se aplicar mais aos próprios humanos.
- Eindícios de cultura parecem estar presentes em alguns grupos de botos. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A compreensão global do texto envolve identificar a ideia principal e os argumentos centrais apresentados pelo autor, conectando as informações dos diferentes parágrafos para formar um entendimento completo.
- (A) Incorreta: O texto menciona que os botos imitam um comportamento humano (atrair fêmeas com "ramalhetes"), mas a "cultura" a que se refere o último parágrafo é a deles próprios, um comportamento aprendido e disseminado entre grupos de botos, não a incorporação da cultura humana. A armadilha aqui é confundir a "imitação" de um comportamento específico com a adoção de uma "cultura" inteira.
- (B) Incorreta: O texto afirma que "A fronteira... foi ficando menos nítida", ou seja, está se tornando menos clara, mas não que "não mais se aplicam". Há uma diferença entre uma fronteira que se esmaece e uma que desaparece completamente.
- (C) Incorreta: O texto indica o oposto: a fronteira entre cultura e natureza está se tornando menos nítida devido a descobertas como a dos botos, sugerindo que a distinção tradicional é cada vez menos absoluta.
- (D) Incorreta: O texto não sugere que a noção de cultura deixe de se aplicar aos humanos. Pelo contrário, ele expande essa noção para incluir outros animais, desafiando a ideia de que a cultura era exclusiva dos humanos.
- (E) Correta: O último parágrafo afirma explicitamente que o comportamento observado nos botos (carregar objetos para atrair fêmeas, disseminado por imitação e aprendizado em alguns bandos) pode ser descrito, "numa única e controversa palavra", como cultura. Isso indica a presença de indícios de cultura em alguns grupos de botos.
Fonte: FCC MPE-AM 2024 Agente de Apoio - Especialidade Administrativo (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.