Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPE-AM 2024 (nº 3)
Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. Vaidoso, na forma humana leva sempre um chapéu na cabeça, supostamente para cobrir o orifício reminiscente da existência aquática. Pode não ser verdade, mas serve como justificação para barrigas inexplicáveis pela ausência de marido. Bem ao modo da natureza social da Amazônia, onde bichos costumam virar gente, e vice-versa. O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval. (1º parágrafo)
Mitos e causos à parte, não é que a ciência revela o que os amazônidas já sabiam? Botos machos são mesmo galantes. Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete — não de flores, mas de plantas aquáticas. Essa imitação barata do comportamento humano é pesquisada por Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Tony Martin, do Serviço Antártico Britânico. Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se torne público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist. (2º parágrafo)
Silva e Martin estudaram botos-tucuxis por três anos na região amazônica. Avistaram mais de 6.000 grupos em Mamirauá, Tefé (oeste do Estado do Amazonas). Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico, como um maço de ervas ou um pedaço de pau. Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. Em português claro, o comportamento seria uma forma de exibicionismo — no bom sentido. Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas. (3º parágrafo)
O curioso é encontrar o expediente só em alguns grupos isolados desses cetáceos. O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura. Não faz muito tempo, essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos. "Cultura", afinal, sempre foi entendida como o oposto de "natureza". A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida com as sucessivas documentações, por vários grupos de pesquisa, do uso de ferramentas por outros primatas. Pelo visto, o boto está prestes a subir na escala social. (4º parágrafo)
(Adaptado de: LEITE, Marcelo. Ciência: use com cuidado. Campinas: Editora da Unicamp, 2014)
Silva e Martin disseram: — Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos.
Ao se transpor o texto acima para o discurso indireto, a forma verbal sublinhada será substituída por:
- Aindiquem.
- Bindicaram.
- Cindicassem.
- Dindicarão.
- Eindicavam. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Quando transformamos o discurso direto (a fala exata de alguém) em discurso indireto (o relato dessa fala), os tempos verbais geralmente mudam. Se o verbo que introduz a fala (verbo dicendi), como "disseram", estiver no passado, o Presente do Indicativo da fala direta (como "indicam") se transforma em Pretérito Imperfeito do Indicativo no discurso indireto.
- (A) Incorreta: "Indiquem" é Presente do Subjuntivo, usado para expressar desejo, dúvida ou em certas orações subordinadas, não sendo a transformação padrão de um Presente do Indicativo factual em discurso indireto.
- (B) Incorreta: "Indicaram" é Pretérito Perfeito do Indicativo, que indica uma ação pontual e concluída no passado. A armadilha aqui é que, embora seja um tempo passado, a transformação mais natural para um Presente do Indicativo que descreve um estado ou uma verdade no momento da fala é o Pretérito Imperfeito, que mantém a ideia de uma ação contínua ou um estado que "era" verdadeiro naquele passado.
- (C) Incorreta: "Indicassem" é Pretérito Imperfeito do Subjuntivo, usado para expressar condição, desejo ou em orações subordinadas que dependem de um verbo no passado, não sendo a transformação direta de um Presente do Indicativo.
- (D) Incorreta: "Indicarão" é Futuro do Presente do Indicativo, que expressa uma ação futura, o que não corresponde à transformação de um verbo no presente quando reportado no passado.
- (E) Correta: "Indicavam" é Pretérito Imperfeito do Indicativo. Esta é a transformação correta do Presente do Indicativo ("indicam") para o discurso indireto quando o verbo introdutório ("disseram") está no passado. O Pretérito Imperfeito mantém a ideia de que a ação ou o estado era verdadeiro ou estava em andamento no momento em que a fala foi proferida no passado.
Fonte: FCC MPE-AM 2024 Agente de Apoio - Especialidade Administrativo (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.