Questão nº 19
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPE-AM 2024 (nº 19)
O caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada veio um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando; para lá de três toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada — fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras. (1º parágrafo)
Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais — no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso — pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e atento e cobiçoso dos comedores de carne. (2º parágrafo)
A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro — que ignomínia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto vai para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da praia, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas. (3º parágrafo)
(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)
Verifica-se o emprego de vírgula para assinalar a supressão de um verbo em:
- APara aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar.
- BEla também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu.
- CPor fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso.
- DEntretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar.
- EMas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A vírgula de elipse é usada para indicar que um termo, geralmente um verbo, foi omitido na frase para evitar repetição, mas pode ser facilmente subentendido pelo contexto. É comum quando o verbo já apareceu em uma parte anterior da mesma oração ou em uma oração coordenada.
(A) Incorreta: A vírgula após "subitamente" isola uma oração subordinada adverbial reduzida ("sem dano físico") com valor de modo ou condição, não indicando omissão de verbo.
(B) Incorreta: As vírgulas separam orações coordenadas assindéticas, cada uma com seu próprio verbo ("esperou", "hesitou", "agradeceu") explícito.
(C) Incorreta: A vírgula após "ela" isola uma oração subordinada adverbial reduzida de gerúndio ("recuperando imediatamente a compostura"), que expressa uma circunstância, não havendo omissão de verbo.
(D) Incorreta: A vírgula após "Entretanto" isola um advérbio de conexão. O dois-pontos introduz uma explicação ou especificação, sem omissão de verbo.
(E) Correta: Na expressão "incertos, os seus impulsos", a vírgula indica a omissão do verbo "são" (ou "é") que já aparece na oração anterior ("incerto é o coração do homem"). A frase completa seria "incertos são os seus impulsos".
Fonte: FCC MPE-AM 2024 Agente de Apoio - Especialidade Administrativo (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.