Questão nº 39

Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 39)

FCC2019RevisorLíngua Portuguesa
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Os debates travados na Câmara e pela imprensa em torno da Lei do Ventre Livre fizeram da emancipação dos escravos uma questão nacional. O projeto do governo foi apresentado à Câmara em 12 de maio de 1871. Para alguns, o projeto era avançado demais, para outros, excessivamente tímido. Os defensores do projeto usaram argumentos morais e econômicos. Argumentavam que o trabalho livre era mais produtivo que o escravo. Diziam que a existência da escravidão era uma barreira à imigração, pois que os imigrantes recusavam-se a vir para um país de escravos. A emancipação abriria as portas à tão desejada imigração. Usando de argumentos morais, denunciavam os que, em nome do direito de propriedade, defendiam a escravidão e se opunham à aprovação do projeto. Não era legítimo invocar o direito de propriedade em se tratando de escravos. “Propriedade de escravos”dizia Torres Homem, político famoso, homem de cor e de origens modestas que chegara ao Senado depois de brilhante carreira“era uma monstruosa violação do direito natural.” “A maioria dos escravos brasileiros”afirmava ele“descendia de escravos introduzidos no país por um tráfico não só desumano como criminoso. Nada pois mais justo que se tomassem medidas para acabar com a escravidão.”

Em contrapartida, os mais arraigados defensores da escravidão consideravam o projeto uma intromissão indébita do governo na atividade privada. Argumentavam que o projeto ameaçava o direito de propriedade garantido pela Constituição. Segundo a prática, que datava do período colonial, o filho de mãe escrava pertencia ao senhor. Qualquer lei que viesse a conceder liberdade ao filho de escrava era, pois, um atentado à propriedade e, o que era pior, abria a porta a todas as formas de abusos contra esse direito. Acusavam o projeto de ameaçar de ruína os proprietários e de pôr em risco a economia nacional e a ordem pública. Diziam ainda que, emancipando-se os filhos e mantendo os pais no cativeiro, criar-se-iam nas senzalas duas classes de indivíduos, minando, dessa forma, a instituição escravista pois não tardaria muito para que os escravos questionassem a legitimidade de sua situação.

(Adaptado de: COSTA, Emília Viotti da. A Abolição. São Paulo: Editora Unesp, 2010, p. 49-52)


Considere as afirmações abaixo.
I. De acordo com a autora, o texto do projeto apresentado à Câmara era ambíguo.
II. Os defensores do projeto argumentavam que o direito à propriedade não era um direito legítimo.
III. Os opositores do projeto argumentavam que este contrariava um direito assegurado pela Constituição.
Está correto o que se afirma APENAS em

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

Conceito-chave: A questão testa se você consegue distinguir o que o texto realmente afirma daquilo que é uma inferência sua ou um exagero. Você deve ler cada afirmação e verificar se ela está literalmente apoiada nas palavras da autora, sem "completar" o sentido.

  • (A) Correta: A afirmação III é exatamente o que os opositores diziam: o projeto era "uma intromissão indébita" e "ameaçava o direito de propriedade garantido pela Constituição". O texto confirma isso palavra por palavra.
  • (B) Incorreta: A afirmação I é falsa porque o texto não diz que o projeto era "ambíguo". Ele diz que o projeto era considerado "avançado demais" para uns e "tímido" para outros, o que é diferente de ser ambíguo (que teria dois sentidos ou interpretações possíveis).
  • (C) Incorreta: A afirmação II é falsa e é a pegadinha clássica. Os defensores não diziam que o "direito à propriedade" era ilegítimo em geral; eles diziam que invocar esse direito para defender a escravidão era ilegítimo, pois a "propriedade de escravos" era uma "monstruosa violação do direito natural". A armadilha está em generalizar: eles atacavam o uso do direito de propriedade naquele caso específico, não o direito em si.
  • (D) Incorreta: Como I e II são falsas, esta opção que junta as duas também é falsa.
  • (E) Incorreta: Como II é falsa, esta opção que junta II e III também é falsa, mesmo que III seja verdadeira.

Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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