Questão nº 16
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 16)
Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo que a gente não se vê. Dei-me conta da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá.
Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nunca esqueci. Romain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu herói adolescente. Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. Mas o que experimentava naquele momento era diferente de tudo o que já sentira antes.
Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre. Pela primeira vez, estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos.
“Christophe voltou sozinho dentro da noite. Nada via. Nada ouvia. Estava morto de sono e adormeceu apenas deitou-se. Mas durante a noite foi acordado duas ou três vezes, como que por uma ideia fixa. Repetia para si mesmo: ‘Tenho um amigo’, e tornava a adormecer.”
Jean-Christophe compreendera a essência da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Se o silêncio entre vocês lhe causa ansiedade, então a pessoa com quem você está não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo ou comer. Quando a pessoa não é amiga, terminado o alegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio, que são insuportáveis.
Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. A amizade anda por caminhos que não passam por programas.
Um amigo vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. E alegria maior não pode existir.
(Adaptado de: ALVES, Rubem. O retorno e terno. Campinas: Papirus, 1995, p. 11-13)
E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. (1º parágrafo)
Sem prejuízo do sentido e da correção, o trecho sublinhado acima pode ser substituído por:
- Aao passo que
- Bporquanto
- Cembora
- Dainda assim (alternativa correta)
- Edado que
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Conectivos adversativos/concessivos são palavras ou expressões que introduzem uma ideia de contraste, oposição ou ressalva em relação ao que foi dito anteriormente, sem necessariamente anular a informação prévia, mas adicionando uma perspectiva diferente ou surpreendente.
- (A) Incorreta: "ao passo que" indica comparação ou simultaneidade, não a ideia de ressalva ou oposição que "no entanto" expressa no contexto.
- (B) Incorreta: "porquanto" é uma conjunção explicativa ou causal, significando "porque" ou "pois", o que alteraria o sentido da frase para uma relação de causa e efeito.
- (C) Incorreta: "embora" é uma conjunção subordinativa concessiva e introduz uma oração subordinada. Embora expresse concessão, sua função sintática é diferente da de "no entanto" neste contexto, que atua como um conectivo adversativo que se refere à ideia anterior. A substituição direta por "embora" sem reestruturação da frase não mantém a correção e a fluidez do sentido original. A armadilha aqui é que "embora" também expressa concessão, mas a estrutura da frase original com "E, no entanto," pede um conectivo que funcione mais como um advérbio ou locução adverbial adversativa, e não como um introdutor de oração subordinada.
- (D) Correta: "ainda assim" é uma locução adverbial com valor adversativo/concessivo, significando "apesar disso" ou "mesmo assim". Ela se encaixa perfeitamente no contexto, mantendo o sentido de que, apesar de a amizade ser uma "coisa rara", ela "ainda assim" é a mais alegre, expressando a mesma ideia de contraste/ressalva de "no entanto".
- (E) Incorreta: "dado que" é uma conjunção causal, significando "já que" ou "visto que", o que mudaria o sentido da frase para uma relação de causa e efeito.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Conhecimentos Comuns (Superior Padrão) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.