Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC BANRISUL 2018 (nº 1)
A chave do tamanho
O antes de nascer e o depois de morrer: duas eternidades no espaço infinito circunscrevem o nosso breve espasmo de vida. A imensidão do universo visível com suas centenas de bilhões de estrelas costuma provocar um misto de assombro, reverência e opressão nas pessoas. “O silêncio eterno desses espaços infinitos me abate de terror”, afligia-se o pensador francês Pascal. Mas será esse necessariamente o caso?
O filósofo e economista inglês Frank Ramsey responde à questão com lucidez e bom humor: “Discordo de alguns amigos que atribuem grande importância ao tamanho físico do universo. Não me sinto absolutamente humilde diante da vastidão do espaço. As estrelas podem ser grandes, mas não pensam nem amam – qualidades que impressionam bem mais do que o tamanho. Não acho vantajoso pesar quase cento e vinte quilos”.
Com o tempo não é diferente. E se vivêssemos, cada um de nós, não apenas um punhado de décadas, mas centenas de milhares ou milhões de anos? O valor da vida e o enigma da existência renderiam, por conta disso, os seus segredos? E se nos fosse concedida a imortalidade, isso teria o dom de aplacar de uma vez por todas o nosso desamparo cósmico e as nossas inquietações? Não creio. Mas o enfado, para muitos, seria difícil de suportar.
(Adaptado de: GIANETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 35)
Ao longo do texto, o autor sustenta a ideia de que a infinitude
- Ado universo acalenta nossa confiança na infinitude da espécie humana.
- Bdos espaços cósmicos refreia o nosso anseio de imortalidade.
- Cdo tempo universal impede-nos de usufruir o tempo de nossa finitude.
- Ddos espaços ou do tempo não garante a vantagem de uma suposta imortalidade. (alternativa correta)
- Edas coisas nunca representou alguma restrição à nossa sensação de liberdade.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O conceito-chave do texto é que a imensidão (infinitude) do universo, seja em espaço ou tempo, não é inerentemente benéfica ou capaz de resolver as inquietações existenciais humanas. O autor sugere que qualidades como pensar e amar são mais valiosas do que o mero tamanho ou a duração da vida.
- (A) Incorreta: O texto indica que a infinitude do universo provoca "assombro, reverência e opressão", e Pascal sentia "terror", o que contradiz a ideia de "acalentar nossa confiança".
- (B) Incorreta: O texto não afirma que a infinitude dos espaços cósmicos refreia o anseio de imortalidade. Pelo contrário, ele questiona se a imortalidade (um tipo de infinitude no tempo) seria realmente vantajosa ou aplacaria o "desamparo cósmico".
- (C) Incorreta: O texto não aborda a ideia de que o tempo universal nos impede de usufruir nossa finitude; ele discute a qualidade e o valor de uma vida prolongada ou imortal, questionando se isso traria benefícios.
- (D) Correta: O texto sustenta essa ideia ao citar Ramsey, que desvaloriza o tamanho ("As estrelas podem ser grandes, mas não pensam nem amam"), e ao questionar se a imortalidade (infinitude no tempo) aplacaria o "desamparo cósmico" ou as "inquietações", concluindo com "Não creio" e mencionando o "enfado" como uma dificuldade. Isso mostra que a infinitude, seja de espaço ou tempo, não garante uma vantagem ou solução para a condição humana.
- (E) Incorreta: O texto não discute a sensação de liberdade. Além disso, para Pascal, a infinitude representava uma "opressão" e "terror", o que seria uma restrição ao bem-estar, se não à liberdade.
Fonte: FCC BANRISUL 2018 Escriturário (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.