Questão nº 28
Questão de Literatura · INEP ENEM 2025 (nº 28)
Pequenino morto
Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!
Que caminho triste, e que viagem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham...
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foge da cobiça dessas fundas valas
A pedir que as encham.
Nesse fragmento do poema, o sentimento de luto adquire contornos expressivos e é intensificado pela
- Adescrição da paisagem de um cemitério.
- Brecusa do eu lírico à irreversibilidade da morte. (alternativa correta)
- Csonoridade dos versos produzida pela pontuação.
- Dreligiosidade evocada como forma de fortalecimento.
- Eimpressão de sonho na construção da estrutura poética.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
O poema é um apelo desesperado: o eu lírico (a voz que fala no poema) se recusa a aceitar que a criança está morta e insiste em mandá-la "acordar", como se a morte pudesse ser revertida pela força do chamado. É essa recusa à irreversibilidade da morte (a ideia de que a morte não tem volta) que dá o tom de luto.
- (A) Incorreta: A paisagem do cemitério (ciprestes, valas) existe no texto, mas é só cenário; o sentimento de luto vem do apelo insistente "acorda!", não da descrição em si.
- (B) Correta: O eu lírico fala com o morto como se ele apenas dormisse ("como em berço de ouro", "dormindo") e repete "acorda!", negando que a morte seja definitiva — isso é a recusa à irreversibilidade da morte, que intensifica o luto.
- (C) Incorreta: A pontuação (reticências, exclamações) reforça o ritmo e a emoção, mas é recurso de sonoridade, não o núcleo do sentimento de luto; a banca quer o conteúdo temático, não o efeito gráfico.
- (D) Incorreta: Não há invocação religiosa como consolo ou fortalecimento; o poema não reza nem busca fé — apenas clama pela criança.
- (E) Incorreta: A estrutura tem tom onírico leve ("como em berço"), mas o poema não é construído como sonho; a impressão de sono é justamente o que o eu lírico quer desfazer.
Comentário do distrator mais tentador (A): A alternativa (A) é a armadilha clássica da banca. O aluno vê "ciprestes negros", "valas", "caixão" e pensa: "é cemitério, então é a paisagem". Mas a pergunta é sobre o que intensifica o sentimento de luto — e a paisagem é apenas pano de fundo. O que dói no poema é a voz que se recusa a aceitar a morte, repetindo "acorda!" como se fosse possível. Sempre pergunte: "o que o eu lírico FAZ com esses elementos?" — aqui, ele nega a morte, e é isso que a banca cobra.
Fonte: INEP ENEM 2025 (Caderno Azul). Reproduzida para fins de estudo.