Questão nº 16
Questão de Literatura · INEP ENEM 2025 (nº 16)
Símbolos
Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento do mar, fero, a estourar de encontro à rocha nua...
Um símbolo descubro aqui, neste momento
esta rocha, este mar... a minha vida e a tua.
O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento de quem maltrata e, após, se arrepende e recua.
Como compreendo bem da rocha o sentimento!
São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua.
Contemplo neste quadro a nossa triste vida; tu és dúbio mar que, na sua inconsciência, tem carinhos de amor e fúrias de demência!
Eu sou a dor estanque, a dor empedernida, sou rocha a emergir de um côncavo de areia, imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia.
Nesse soneto, os traços da estética simbolista são resgatados pelo eu lírico ao
- Arejeitar as emoções de “amor” e “mágoa”.
- Bexpressar a dubiedade do olhar sobre o outro.
- Crepresentar o “eu” e o “tu” como sujeitos volúveis.
- Dassociar a sua inconsciência a elementos da natureza.
- Emetaforizar o conflito amoroso nas imagens de “mar” e “rocha”. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O Simbolismo é uma estética que prefere sugerir a nomear: em vez de dizer "estou magoado", o eu lírico projeta seu sentimento em imagens da natureza, criando um símbolo (elemento concreto que representa algo abstrato). Aqui, "mar" e "rocha" funcionam como espelhos do conflito amoroso entre o "eu" e o "tu".
- (A) Incorreta: o poema não rejeita "amor" e "mágoa"; ele os incorpora às imagens (o mar tem "carinhos de amor", o eu tem "mágoa"), então não há rejeição.
- (B) Incorreta: o olhar sobre o outro não é dúbio/incerto — o eu define o "tu" com clareza como "dúbio mar"; a dubiedade é do outro, não do olhar.
- (C) Incorreta: só o "tu" é volúvel (mar que vai e vem); o "eu" é descrito como imóvel, muda, alheia, ou seja, o oposto de volúvel.
- (D) Incorreta: a inconsciência é atribuída ao "tu" ("mar... na sua inconsciência"), não ao eu lírico; a alternativa troca os papéis.
- (E) Correta: o soneto constrói todo o conflito amoroso por meio de metáforas/símbolos — o "mar" (o outro, inconstante) e a "rocha" (o eu, magoado e impassível) —, exatamente o procedimento simbolista de metaforizar o eu lírico na natureza.
Pegadinha da banca (distrator mais tentador — letra C): a alternativa usa a palavra "volúveis", que parece combinar com o poema, porque o mar realmente é inconstante. A armadilha é o plural generalizante: ela diz que "o eu e o tu" são volúveis, mas o texto marca uma oposição — o "tu" é o mar mutável, o "eu" é a rocha fixa. Sempre que a alternativa juntar os dois sujeitos numa qualidade que só um deles tem, desconfie: é troca de papel.
Fonte: INEP ENEM 2025 (Caderno Azul). Reproduzida para fins de estudo.