Questão nº 21
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BNDES 01/2024 (nº 21)
O consumo como forma de expressão e de pertencimento
Você é o que você consome, queira ou não, sendo consumista ou não. Dentro da lógica capitalista, a exemplo da frase dita pelo poeta Paulo Leminski “Repara bem o que eu não digo”, você é até aquilo que deixa de consumir. Quem faz essa afirmação é o antropólogo Everardo Rocha, que, há cerca de 40 anos, estuda a Antropologia do Consumo e da Mídia. Em seu livro “O Paraíso do Consumo: Émile Zola, a magia e os grandes magazines”, Rocha avalia os impactos socioculturais do principal personagem do livro, que é o “grande magazine” - tradução de “grand magasin”, como são chamadas as lojas de departamentos na França. Ele faz uma análise da expansão das lojas de departamentos no século XIX e explica como ocorreu a consolidação do consumo na modernidade. “Os grandes magazines foram, de fato, a virada fundamental que reuniu diversas potencialidades para fazer do consumo um fenômeno central da nossa cultura”, afirma o antropólogo.
De acordo com Rocha, passados mais de um século e meio desde a inauguração do primeiro grande magazine em Paris, diversas características desse modelo de negócios continuam atuantes na cultura de consumo que vivemos hoje. Por exemplo, as lojas de departamentos do século XIX impulsionaram inovações no comércio da época que permanecem no nosso cotidiano presente, tais como: a exposição dos produtos em vitrines, a fixação e a exibição de preços em etiquetas, a criação de datas comemorativas e promocionais, a incorporação de feriados religiosos e cívicos ao calendário de compras e a transformação das visitas às lojas em momentos de entretenimento. “Esses empreendimentos contribuíram para dar forma ao sistema de consumo moderno. Criaram espaços de sociabilidade e ciclos que ritualizam as práticas dos consumidores, fomentando datas especiais como o ‘dia das mães’, ‘dia dos namorados’, as liquidações, a Black Friday, e assim por diante”, explica o antropólogo. O pesquisador lembra ainda que “as atividades de consumo, até mesmo as compras corriqueiras, são revestidas de carga simbólica. Expressam afeto, materializam status e hierarquias sociais, estabelecem relacionamentos e a obrigação de reciprocidade”.
Para o antropólogo, na vida moderna, as pessoas são identificadas e se reúnem, em larga medida, de acordo com suas práticas de consumo. “Fazemos parte de grupos urbanos que se formam de acordo com gostos, estilos e poder aquisitivo; os bens de consumo podem ser uma ponte ou um muro entre as pessoas. Nossas escolhas e possibilidades de consumo, por exemplo, as marcas de roupas que costumamos usar, o tipo de carro que dirigimos, dentre outras, tanto refletem quanto viabilizam nossas relações sociais”, diz o antropólogo. “Pessoas podem ser classificadas pelas roupas que estão vestindo ou pela decoração de suas casas, pelos serviços que contratam, pelas comidas de que gostam, pelas viagens que fazem durante as férias”.
O porquê disso pode ser resumido a uma só questão: a vontade de pertencer a um nicho social diferente. Não basta ser, é preciso ter, e, se possível, mostrar que tem.
Se consumir é importante para ser e se estabelecer na sociedade moderna, dispositivos que tornam isso particularmente evidente são as mídias sociais, que servem como vitrines das vivências e experimentações de cada um. “Nas redes sociais, o ritual é esse: usuários editam a sua própria imagem, de forma mais ou menos consciente, para construir e manter relações naquele ambiente virtual. Em conjunto, as fotos e os status compartilhados devem significar aquilo que, em sociedade, geralmente se considera adequado e interessante. Inclusive, é comum ouvir alguém da ‘vida real’ se queixar do excesso de felicidade que todos parecem exibir ali. Essa aparente perfeição é elaborada através de recorrentes posts de pés descalços na praia, reuniões com família e amigos, festas, infinitas viagens, shows de música, check-in em restaurantes, cinemas, pontos turísticos, aeroportos, e assim por diante. Retratos e selfies existem para o outro e, em certo sentido, todas essas publicações são um prolongamento da ‘vitrinização’ da vida social levada a efeito pelos grandes magazines do século XIX”.
Analisando o fenômeno do consumo desde a época da inauguração dos primeiros grandes magazines, no século XIX, Rocha afirma que, apesar do avanço tecnológico e da aceleração da globalização, muitos dos rituais e dos valores de hoje já eram partilhados, de certa maneira, naquela época e até antes dela. “As técnicas e os veículos de comunicação mudaram, mas não certos hábitos, formas de expressão e de relacionamento. Por exemplo, um artigo de um pesquisador de história da arte mostra como, desde o início da modernidade, a pintura de retratos e autorretratos se torna uma prática difundida não só entre monarcas e membros da nobreza, mas também entre os burgueses em ascensão, que, através dessa forma de divulgar a si mesmos, queriam demonstrar poder, prestígio e conexões sociais. Em um tempo menos distante, na minha juventude, não havia ainda a internet, mas podíamos fazer amigos por correspondência, em trocas de cartas, como hoje funcionam as mensagens em redes sociais on-line”.
Quando perguntado sobre o futuro do nosso consumo, Rocha diz que, como antropólogo, seria inconsequente tentar predizer o que veremos ao longo dos próximos anos: “Apesar da celeridade tecnológica, os processos de mudança cultural são bem mais lentos do que se imagina. Em vários aspectos da cultura, podemos ver mudanças rápidas quando olhamos, por exemplo, as tecnologias ou os conteúdos de um filme ou de uma novela. Porém, se olharmos pelo plano da estrutura narrativa dessa novela ou filme, podemos ver a permanência de valores que já estavam em filmes e novelas bem mais antigos. Os conteúdos podem mudar em ritmo muito mais rápido do que os modelos que os sustentam”.
Ao longo do texto, estabelece-se uma relação entre os grandes magazines no século XIX e a consolidação do consumo na modernidade.
Essa relação se baseia na ideia de que esses grandes magazines
- Adefiniram grupos urbanos em função do poder aquisitivo dos consumidores.
- Binauguraram a compra e a venda de produtos como atividades de expressão de afeto.
- Cconceberam espaços de venda como territórios de expressão de identidades individuais.
- Delaboraram uma nova cultura de venda definidora de práticas de consumo que perduram até hoje. (alternativa correta)
- Ecriaram o exibicionismo que se reproduziu em diversas práticas modernas e contemporâneas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Conceito-chave: A tese central do texto é que os grandes magazines do século XIX não foram apenas lojas, mas criadores de uma cultura de consumo — eles inventaram rituais, datas e formas de vender que estruturam nosso comportamento até hoje (vitrines, etiquetas, Black Friday, etc.). A questão pede para identificar a base dessa relação histórica, e não um efeito isolado.
- (A) Incorreta: O texto menciona que grupos urbanos se formam por poder aquisitivo, mas isso é uma consequência atual da cultura de consumo, não a base da relação histórica com os magazines do século XIX.
- (B) Incorreta: O texto diz que as compras são "revestidas de carga simbólica" e expressam afeto, mas os magazines não "inauguraram" essa atividade — eles a consolidaram e ritualizaram, tornando-a central.
- (C) Incorreta: Embora o consumo expresse identidades, a ideia de "espaços de venda como territórios de expressão" é uma leitura moderna e psicológica; o texto enfatiza que os magazines criaram práticas e rituais de consumo, não que inventaram a identidade individual.
- (D) Correta: O texto afirma explicitamente que os magazines foram "a virada fundamental" que reuniu potencialidades para fazer do consumo um fenômeno central, e que suas inovações (vitrines, etiquetas, datas promocionais) "permanecem no nosso cotidiano presente" — ou seja, eles elaboraram uma cultura de venda que perdura.
- (E) Incorreta: Armadilha da banca: Esta é a distratora mais tentadora, pois o texto fala de "vitrinização" e exibicionismo nas redes sociais. Porém, o exibicionismo é uma consequência dessa cultura (um exemplo atual), não a base da relação entre os magazines e a modernidade. A banca troca a causa (cultura de venda) pelo efeito (exibicionismo).
Fonte: CESGRANRIO BNDES 01/2024 Conhecimentos Comuns. Reproduzida para fins de estudo.