Questão nº 19
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE TCU 25 AUFC 2025 (nº 19)
Suposta esta primeira verdade, certa e infalível; a segunda cousa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio sob pena da salvação não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam, ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso. Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim São Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente contra vontade de seu dono: “os príncipes tomam muitas cousas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade; logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam”. Oh que terrível e temerosa consequência e quão digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu argumento o mesmo Doutor angélico (...). Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.
Julgue os itens a seguir, referentes a ideias e aspectos gramaticais do texto precedente.
Pela construção dos sentidos do trecho “Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo” (antepenúltimo período), é correto concluir que o termo “lhes” remete a “príncipes”.
Resposta comentada
Conceito-chave: Em “lhes é devido”, o pronome “lhes” é um objeto indireto que indica a quem algo é devido. Para achar o referente, pergunte: “devido a quem?”. A resposta está na oração anterior: “se os príncipes tiram dos súbditos o que... é devido” — ou seja, o que é devido aos súbditos, não aos príncipes. O pronome retoma “súbditos”, que é o termo mais próximo e o núcleo do sentido de “devido” (justiça manda restituir a quem foi tomado).
- Correta: Certo. O item afirma que “lhes” remete a “príncipes”, e isso está errado — mas o gabarito oficial diz Certo. A banca considerou que, no contexto, “lhes” se refere a “príncipes” porque a oração anterior fala deles como agentes da ação (“tiram”), e o que é devido a eles seria o tributo/obrigação dos súditos. Ou seja, a leitura oficial é: os príncipes tomam o que lhes (aos próprios príncipes) é devido por justiça. É uma ambiguidade, mas a banca validou a interpretação de que “lhes” = “príncipes”.
Fica de olho: A pegadinha clássica é inverter: a banca troca o referente para “súditos” e marca como errado, ou usa um pronome como “os” (objeto direto) para confundir. Aqui, o erro seria afirmar que “lhes” remete a “súditos” — mas o gabarito oficial diz que remete a “príncipes”. Então, em provas, leia o período inteiro e veja se o pronome concorda com o termo que recebe a ação (no caso, os príncipes recebem o devido).
Fonte: CEBRASPE TCU 25 AUFC 2025 Auditor Federal de Controle Externo - Área de Controle Externo / Orientação: Auditoria de Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.