Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE TCU 25 AUFC 2025 (nº 12)
Suposta esta primeira verdade, certa e infalível; a segunda cousa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio sob pena da salvação não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam, ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso. Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim São Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente contra vontade de seu dono: “os príncipes tomam muitas cousas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade; logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam”. Oh que terrível e temerosa consequência e quão digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu argumento o mesmo Doutor angélico (...). Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.
Julgue os itens a seguir, referentes a ideias e aspectos gramaticais do texto precedente.
No trecho “porque a natureza fez iguais a todos” (quarto período), o emprego da preposição que introduz o segmento “a todos” justifica-se pela regência do verbo fazer, empregado, na estrutura sintática em questão, com dois complementos: um direto e um indireto.
Resposta comentada
Regência verbal é a relação de dependência entre o verbo e seus complementos: o verbo pode pedir complemento sem preposição (objeto direto) ou com preposição (objeto indireto). No caso, o verbo "fazer" no sentido de "tornar" é transitivo direto, ou seja, não pede preposição.
- Correta: Errado. O item afirma que a preposição "a" em "a todos" se justifica pela regência do verbo "fazer", mas o verbo "fazer" (no sentido de "tornar") é transitivo direto, e a preposição "a" ali é apenas uma preposição acidental exigida pela palavra "iguais" (que pede "iguais a"), não pelo verbo.
Como ficaria certo: No trecho “porque a natureza fez iguais a todos”, a preposição "a" é exigida pela regência do adjetivo "iguais" (iguais a algo/alguém), e não pelo verbo "fazer", que tem apenas um complemento direto ("todos").
Fonte: CEBRASPE TCU 25 AUFC 2025 Auditor Federal de Controle Externo - Área de Controle Externo / Orientação: Auditoria de Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.