Questão nº 16
Questão de Língua Portuguesa · FGV TJAL 2018 (nº 16)
TEXTO - Ressentimento e Covardia
Tenho comentado aqui na Folha em diversas crônicas, os usos da internet, que se ressente ainda da falta de uma legislação específica que coíba não somente os usos mas os abusos deste importante e eficaz veículo de comunicação. A maioria dos abusos, se praticados em outros meios, seriam crimes já especificados em lei, como a da imprensa, que pune injúrias, difamações e calúnias, bem como a violação dos direitos autorais, os plágios e outros recursos de apropriação indébita.
No fundo, é um problema técnico que os avanços da informática mais cedo ou mais tarde colocarão à disposição dos usuários e das autoridades. Como digo repetidas vezes, me valendo do óbvio, a comunicação virtual está em sua pré-história.
Atualmente, apesar dos abusos e crimes cometidos na internet, no que diz respeito aos cronistas, articulistas e escritores em geral, os mais comuns são os textos atribuídos ou deformados que circulam por aí e que não podem ser desmentidos ou esclarecidos caso por caso. Um jornal ou revista é processado se publicar sem autorização do autor um texto qualquer, ainda que em citação longa e sem aspas. Em caso de injúria, calúnia ou difamação, também. E em caso de falsear a verdade propositadamente, é obrigado pela justiça a desmentir e dar espaço ao contraditório.
Nada disso, por ora, acontece na internet. Prevalece a lei do cão em nome da liberdade de expressão, que é mais expressão de ressentidos e covardes do que de liberdade, da verdadeira liberdade.
(Carlos Heitor Cony, Folha de São Paulo, 16/05/2006 – adaptado)
“Como digo repetidas vezes, me valendo do óbvio, a comunicação virtual está em sua pré-história”.
A utilização do termo “pré-história” mostra um tipo de linguagem figurada denominado:
- Ametáfora; (alternativa correta)
- Bmetonímia;
- Cpleonasmo;
- Dparadoxo;
- Ehipérbole.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A metáfora é uma figura de linguagem que estabelece uma comparação implícita entre dois termos, sem usar conectivos comparativos como "como" ou "tal qual", transferindo o sentido de uma palavra para outra com base em uma característica comum.
- (A) Correta: A expressão "pré-história" é usada aqui em sentido figurado para indicar que a comunicação virtual está em um estágio muito inicial, primitivo ou pouco desenvolvido, assim como a pré-história da humanidade. Há uma comparação implícita entre o estágio atual da comunicação virtual e o período pré-histórico, sem o uso de conectivos comparativos, caracterizando uma metáfora.
- (B) Incorreta: A metonímia consiste na substituição de um termo por outro com o qual mantém uma relação de proximidade ou interdependência (como a parte pelo todo, o autor pela obra, o continente pelo conteúdo). Não é o caso aqui, pois não há substituição por uma relação de contiguidade.
- (C) Incorreta: O pleonasmo é a repetição desnecessária de uma ideia para enfatizar ou reforçar o sentido (ex: "subir para cima", "elo de ligação"). A frase não apresenta redundância.
- (D) Incorreta: O paradoxo é a apresentação de ideias opostas que, à primeira vista, parecem contraditórias, mas que, ao serem analisadas, revelam um sentido lógico ou profundo (ex: "silêncio eloquente"). Não há contradição aparente na afirmação.
- (E) Incorreta: A hipérbole é o uso de um exagero intencional para enfatizar uma ideia ou emoção (ex: "morrer de rir", "chorar rios de lágrimas"). Embora a ideia de "pré-história" possa sugerir um estado muito inicial, a intenção principal não é apenas exagerar, mas sim estabelecer uma comparação de estado (primitivo/inicial) com um período histórico conhecido, o que a torna uma metáfora e não uma simples hipérbole. A armadilha aqui é confundir a intensidade da comparação com um exagero puro e simples; a metáfora foca na similaridade de características, não apenas na amplificação.
Fonte: FGV TJAL 2018 Técnico Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.