Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJ-BA 2023 (nº 13)
Texto 1 – Estudo revela novo alvo para busca de terapias contra doença de Parkinson [fragmento]
Experimentos com camundongos feitos na USP mostraram que a micróglia, um tipo de célula imunológica presente no sistema nervoso central, ajuda a limitar a perda de neurônios
Agência Fapesp
Estudo conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) revelou um possível mecanismo protetor contra a doença de Parkinson.
Em camundongos, foi observado que a micróglia, um tipo de célula imunológica do sistema nervoso que compõe a chamada glia – conjunto diversificado de células que dá suporte ao funcionamento dos neurônios – pode limitar a perda de capacidade motora e a morte neuronal.
Todos os testes foram conduzidos em animais que receberam 6-hidroxidopamina, uma toxina indutora de sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson, aplicada diretamente no cérebro. Antes, metade dos animais teve as micróglias praticamente eliminadas por uma substância, chamada PLX5622. O grupo que manteve essas células registrou perdas menos significativas de neurônios e de movimento quando comparado aos demais roedores.
"Esses resultados sugerem um possível alvo para o tratamento da doença no futuro, quando descobrirmos mecanismos capazes de ativar a micróglia de maneira benéfica", disse a doutoranda Carolina Parga à assessoria de imprensa do ICB-USP. Ela é primeira autora de um artigo publicado no Journal of Neuroimmunology. [...]
A descoberta contradiz o que os próprios pesquisadores do ICB e outros estudiosos da área haviam visto anteriormente sobre essas células. Até então acreditava-se o contrário, pois, quando elas eram bloqueadas por fármacos, os sintomas do Parkinson eram mitigados.
"A hipótese mais provável para explicar essa diferença nos resultados é a atuação dos dois fenótipos da micróglia, algo já identificado anteriormente na literatura científica. Uma característica, a positiva, que protege contra a perda neuronal, talvez se manifeste no início da doença, e a outra característica, a negativa, que impulsiona essa perda neuronal, vai predominando à medida que a doença vai evoluindo; o mesmo pode ocorrer em outras doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer e algumas formas de epilepsia", detalha Luiz Roberto Giorgetti de Britto, coordenador do estudo pelo Laboratório de Neurobiologia Celular do ICB. [...]
"Isso reforça a importância de desenvolvermos formas de diagnósticos mais assertivas para as doenças neurodegenerativas, para assim chegarmos a soluções terapêuticas. Pois trata-se de doenças que podem estar ativas durante décadas antes do diagnóstico, que em geral se dá só após a manifestação de sintomas, mas sendo mitigadas pela micróglia e outros mecanismos", complementa.
MUDANÇAS GENÉTICAS
No estudo também foram identificados dois genes que podem estar relacionados à doença de Parkinson. Esses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos em que as micróglias foram eliminadas.
"São dois genes relacionados à transmissão por dopamina [substância que influencia nossas emoções, aprendizado e locomoção, além de outras funções] entre alguns grupos de neurônios do sistema nervoso, o que sugere que a micróglia pode ser responsável pela modulação da expressão de genes que atuam nesses processos. Isso ajuda a explicar como a sua ausência resulta na perda de neurônios, o que causa a diminuição de dopamina, o fator responsável pelas alterações motoras", aponta Parga.
Esse conhecimento é promissor principalmente para a pequena parcela de casos de Parkinson e Alzheimer que tem causas genéticas, um total de 5% a 7% dos diagnósticos. "Conhecendo melhor o comportamento desses genes talvez possamos, no futuro, antecipar o diagnóstico da doença, além de propor terapias que consistem na manipulação deles", afirma Britto.
O Laboratório de Neurobiologia Celular agora se aprofunda nos resultados obtidos e nas hipóteses levantadas e também estuda as possíveis implicações da micróglia em modelos animais da doença de Alzheimer.
Em cada uma das alternativas abaixo, uma passagem do texto 1 foi reescrita com o acréscimo de uma ou mais vírgulas. O único caso em que esse acréscimo produziu incoerência textual é:
- A“O grupo que manteve essas células registrou perdas menos significativas de neurônios e de movimento quando comparado aos demais roedores.” > O grupo, que manteve essas células, registrou perdas menos significativas de neurônios e de movimento quando comparado aos demais roedores. (alternativa correta)
- B“A descoberta contradiz o que os próprios pesquisadores do ICB e outros estudiosos da área haviam visto anteriormente sobre essas células.” > A descoberta contradiz o que os próprios pesquisadores do ICB e outros estudiosos da área haviam visto, anteriormente, sobre essas células.
- C“Até então acreditava-se o contrário, pois, quando elas eram bloqueadas por fármacos, os sintomas do Parkinson eram mitigados.” > Até então, acreditava-se o contrário, pois, quando elas eram bloqueadas por fármacos, os sintomas do Parkinson eram mitigados.
- D“No estudo também foram identificados dois genes que podem estar relacionados à doença de Parkinson.” > No estudo, também foram identificados dois genes que podem estar relacionados à doença de Parkinson.
- E"Conhecendo melhor o comportamento desses genes talvez possamos, no futuro, antecipar o diagnóstico da doença [...]” > Conhecendo melhor o comportamento desses genes, talvez possamos, no futuro, antecipar o diagnóstico da doença.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A vírgula é usada para separar elementos que não são essenciais para a compreensão básica da frase (como orações explicativas ou adjuntos adverbiais deslocados), mas sua ausência ou presença pode mudar drasticamente o sentido, especialmente em orações adjetivas.
(A) Correta: A adição das vírgulas em "O grupo**, que manteve essas células,** registrou..." transforma a oração "que manteve essas células" de restritiva em explicativa.
- Na frase original ("O grupo que manteve essas células registrou..."), a oração é restritiva, ou seja, ela especifica qual grupo é, diferenciando-o de outros grupos (o texto menciona que "metade dos animais teve as micróglias praticamente eliminadas"). Essa restrição é crucial para a coerência, pois há um contraste entre grupos.
- Com as vírgulas, a oração se torna explicativa, sugerindo que o grupo (já conhecido e único) manteve essas células como uma informação adicional, não essencial para identificá-lo. Isso gera incoerência, pois o texto deixa claro que existiam outros grupos que não mantiveram as células. A informação "que manteve essas células" é fundamental para identificar o grupo em questão, não apenas uma explicação.
(B) Incorreta: A vírgula isola o advérbio de tempo "anteriormente", que funciona como um adjunto adverbial de tempo deslocado. Embora não seja obrigatória para advérbios curtos, sua inserção não causa incoerência e é aceitável para dar ênfase ou pausa.
(C) Incorreta: A vírgula separa o adjunto adverbial de tempo "Até então" do restante da oração. Quando um adjunto adverbial está deslocado (no início da frase, por exemplo), a vírgula é recomendada, especialmente se for de longa extensão, mas mesmo para curtos, não gera incoerência.
(D) Incorreta: A vírgula separa o adjunto adverbial de lugar "No estudo" do restante da oração. Similar ao caso (C), é uma pontuação correta para um adjunto adverbial deslocado e não causa incoerência.
(E) Incorreta: A vírgula separa a oração subordinada adverbial reduzida de gerúndio "Conhecendo melhor o comportamento desses genes" da oração principal. Quando a oração subordinada adverbial vem antes da principal, a vírgula é obrigatória, garantindo a clareza e a correção gramatical, sem gerar incoerência.
Fonte: FGV PSS TJ-BA 2023 Juiz Leigo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.