Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FGV MPMS 2012 (nº 7)
Consumo impróprio?
Não existe, provavelmente porque seria inútil, um levantamento sobre formas e maneiras de combater o tráfico e o uso de drogas no Brasil.
A proposta mais recente, que deve ser votada pelo Congresso em fevereiro, tem defensores e críticos. Se transformada em lei, criará a internação compulsória em comunidades terapêuticas para quem for apanhado com drogas. Alguns adversários acham que é castigo excessivo; os que a defendem sustentam que é isso mesmo que a sociedade deseja, mas não há provas disso. O principal problema parece ser a dificuldade de distinguir entre viciados e traficantes.
Uma especialista da ONU, Ilona Szabo, lembra que a quantidade de drogas em poder do cidadão não prova coisa alguma: apenas cria para o traficante a necessidade de ter estoques do produto escondidos e só levar consigo pequenas quantidades de cada vez. Nada mais simples.
Os números da repressão são pouco animadores. Uma pesquisa recente mostrou que, num período de um ano e meio, 66% dos presos com drogas eram réus primários, e quase metade carregava menos de cem gramas de maconha. Ou seja, a repressão está concentrada na arraia-miúda.
O outro lado do combate ao vício, que é a recuperação dos viciados, poderá ganhar impulso se o Congresso aprovar, em fevereiro, um projeto que cria comunidades terapêuticas e estabelece internação obrigatória para desintoxicação.
Nos debates sobre o tema, a questão mais complexa parece ser a distinção entre o vício e o crime – e certamente o grande risco é tratar o viciado como traficante – o que pode acabar por levá-lo mesmo para o tráfico. O projeto que está no Congresso talvez corra o risco de transformar usuários em bandidos.
E há outras propostas curiosas. Um anteprojeto produzido por uma comissão de juristas, por exemplo, sugere a descriminalização do plantio de maconha para uso próprio.
Se vingar, vai criar um trabalhão para a polícia: como garantir que o uso próprio, na calada da noite, não se transforma em consumo impróprio?
(Luiz Garcia, O Globo, 28/12/2012)
O segundo parágrafo do texto exemplifica um tipo de gênero textual. Por sua estruturação, sua classificação mais adequada é a de
- Aexpositivo informativo.
- Bexpositivo didático.
- Cargumentativo polêmico. (alternativa correta)
- Dnarrativo publicitário.
- Edescritivo científico.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: Gênero textual é a forma como o texto se organiza para cumprir um propósito comunicativo. Um texto argumentativo defende um ponto de vista, e ele é polêmico quando discute um tema controverso, apresentando opiniões divergentes e provocando debate, como faz o autor ao questionar projetos de lei sobre drogas.
(A) Incorreta: O texto não é apenas informativo, pois o autor emite opiniões e críticas ("castigo excessivo", "trabalhão para a polícia"), não se limitando a expor fatos de forma neutra.
(B) Incorreta: Não tem caráter pedagógico ou de ensino sistemático de um conteúdo; é uma coluna de opinião, não uma aula ou manual.
(C) Correta: É um texto argumentativo polêmico porque discute um tema social controverso (internação compulsória, descriminalização), apresenta posições contrárias e defende um ponto de vista crítico, com tom de debate.
(D) Incorreta: Não narra uma história com personagens e enredo, nem tem intenção publicitária de vender um produto ou ideia de forma apelativa.
(E) Incorreta: Não segue o rigor metodológico da ciência (dados, experimentos, hipóteses testáveis); usa dados apenas como ilustração de um argumento, sem pretensão de produzir conhecimento científico.
Armadilha da banca (distrator mais tentador - A): A pegadinha está em achar que, por citar pesquisas e números, o texto é "informativo". Mas a informação é usada como recurso argumentativo para convencer o leitor, não como fim em si mesma. O tom de crítica e a defesa de um ponto de vista (ex.: "o grande risco é tratar o viciado como traficante") desmontam a neutralidade exigida pelo gênero expositivo.
Fonte: FGV MPMS 2012 Conhecimentos Comuns (Analista). Reproduzida para fins de estudo.