Questão nº 19
Questão de Português · FGV DPGE-RJ 2014 (nº 19)
ESQUECERAM O PRINCIPAL
Houve um tempo em que os ditos setores progressistas pautavam suas ações por filosofias coerentes. Assim, advogados da infância buscavam promover os interesses das crianças, feministas visavam a afirmar a autonomia das mulheres e militantes dos direitos de homossexuais tentavam acabar com a discriminação contra gays, mas sem perder de vista teses mais gerais da esquerda não marxista, que incluíam a ampliação das liberdades e a despenalização do direito.
As coisas mudaram. E para pior, a meu ver. Hoje, os defensores das criancinhas deblateram para que o Congresso mantenha um mecanismo jurídico que permite mandar para a cadeia o pai que não paga em dia pensão do filho. Pouco importa que a prisão por dívidas represente um retrocesso de 2600 anos – uma das reformas de Sólon que facilitou a introdução da democracia em Atenas foi justamente o fim da servidão por dívidas – e que é quase certo que, encarcerado, o pai da criança terá muito menor probabilidade de honrar seus compromissos financeiros.
As feministas agora apoiam o acórdão do Supremo Tribunal Federal que retirou das mulheres o direito de decidir se querem ou não processar companheiros, tornando agressões leves no âmbito do lar um crime de ação pública incondicionada. Pouco importa que isso torne as mulheres menos livres e introduza uma diferenciação de gênero (na situação inversa, um homem pode decidir se processa ou não).
Por fim, homossexuais pedem a edição de uma lei que torne crime referir-se a gays em termos depreciativos ou condenatórios. Pouco importa que tal medida, se adotada, representaria uma limitação da liberdade de expressão, o mais fundamental dos princípios democráticos.
É natural que grupos de ativistas se especializem e, ao fazê-lo, percam de vista as grandes questões, mas fico com a impressão de que estão colocando a parte à frente do todo.
Hélio Schwartsman, Folha de São Paulo, 7/01/2014.
"É natural que grupos de ativistas se especializem e, ao fazê-lo, percam de vista as grandes questões, mas fico com a impressão de que estão colocando a parte à frente do todo".
Em lugar de "colocando a parte à frente do todo", seria mais adequado dizer que estão colocando
- Ao social antes do individual.
- Bo ilegal antes do legal.
- Co específico antes do geral. (alternativa correta)
- Do regional antes do nacional.
- Eo político antes do social.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A expressão "colocar a parte à frente do todo" significa priorizar um aspecto menor, específico ou limitado em detrimento de um contexto maior, mais abrangente ou de princípios gerais.
(A) Incorreta: Embora as ações dos ativistas possam ter implicações individuais e sociais, o texto não estabelece uma dicotomia principal entre o social e o individual como a essência do problema. A "parte" e o "todo" podem ter dimensões sociais e individuais.
(B) Incorreta: O texto não sugere que os ativistas estejam promovendo o ilegal em detrimento do legal. Pelo contrário, eles estão buscando novas leis ou interpretações legais que o autor considera problemáticas por desconsiderarem princípios mais amplos.
(C) Correta: A expressão "colocando a parte à frente do todo" se encaixa perfeitamente na ideia de que os grupos de ativistas, ao se especializarem, focam em suas demandas específicas (a "parte") e perdem de vista as "grandes questões" ou princípios gerais (o "todo"), como a liberdade de expressão, a autonomia ou o fim da prisão por dívidas.
(D) Incorreta: O texto não aborda questões regionais versus nacionais. Os exemplos citados (Congresso, STF) referem-se a âmbitos nacionais.
(E) Incorreta: As questões discutidas são intrinsecamente políticas e sociais. O texto não estabelece uma priorização do político sobre o social ou vice-versa como o cerne da crítica.
Fonte: FGV DPGE-RJ 2014 Técnico Superior Jurídico (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.