Questão nº 18
Questão de Português · FGV DPGE-RJ 2014 (nº 18)
CIDADE URGENTE
Os problemas da expansão urbana estão na conversa cotidiana dos milhões de brasileiros que vivem em grandes cidades e sabem "onde o sapato aperta". São reféns do metrô e do ônibus, das enchentes, da violência, da precariedade dos serviços públicos. No vestibular, todo estudante depara com a "questão urbana" e os pesquisadores se debruçam sobre o assunto, que também é parte significativa da pauta dos meios de comunicação.
Não poderia ser diferente: com 85% da população nas cidades (chegará a 90% ao final desta década), quem pode esquecer a relevância do tema?
Parece incrível, mas os grandes operadores do sistema econômico e político tratam os problemas das cidades como grilos que irritam ao estrilar. Passados os incômodos de cada crise, quem ganha dinheiro no caos urbano toca em frente seus negócios e quem ganha votos, sua campanha. Só alguns movimentos populares e organizações civis – Passe Livre, Nossa São Paulo e outros – insistem em plataformas, debates e campanhas para enfrentar os problemas e encontrar soluções sustentáveis.
A criação do Ministério das Cidades, no governo Lula, fazia supor que o Brasil enfrentaria o desafio urbano, integrando as políticas públicas no âmbito municipal, estabelecendo parâmetros de qualidade de vida e promovendo boas práticas. Passados quase 12 anos, o ministério é mais um a ser negociado nos arranjos eleitorais.
A gestão é fragmentada, educação para um lado e saúde para outro, habitação submetida à especulação imobiliária, saneamento à espera de recursos que vão para as grandes obras de fachada, transporte inviabilizado por um século de submissão ao mercado do petróleo. A fragmentação vem do descompasso entre União, Estados e municípios, desunidos por um pacto antifederativo, adversários na disputa pelos tributos que se sobrepõem nas costas dos cidadãos.
(....) Uma nova gestão urbana pode nascer com a participação das organizações civis e movimentos sociais que acumularam experiências e conhecimento dos moradores das periferias e usuários dos serviços públicos. Quem vive e estuda os problemas, ajuda a achar soluções.
Marina Silva, Folha de São Paulo, 7/1/2014.
A alternativa em que os elementos sublinhados, quando trocam de posição, alteram o sentido original é
- A"...os milhões de brasileiros que vivem em grandes cidades...".
- B"...e sabem "onde o sapato aperta".
- C"são reféns do metrô e do ônibus...".
- D"...das enchentes, da violência, da precariedade dos serviços públicos".
- E"uma nova gestão urbana pode nascer...". (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A ordem das palavras em português pode alterar o sentido de uma frase, especialmente quando adjetivos são posicionados antes ou depois do substantivo, mudando se a característica é inerente/descritiva ou se refere a um tipo/qualidade específica.
- A) Incorreta: "grandes cidades" (cidades de grande porte, importantes) e "cidades grandes" (cidades que são grandes em tamanho) possuem uma diferença sutil, mas no contexto de "milhões de brasileiros que vivem em...", ambas as expressões se referem a grandes centros urbanos, mantendo o sentido original.
- B) Incorreta: "onde o sapato aperta" é uma expressão idiomática que significa "onde o problema está". Se trocarmos os elementos sublinhados ("o sapato" e "aperta"), teríamos "onde aperta o sapato", que mantém o mesmo sentido idiomático.
- C) Incorreta: A troca de posição entre "metrô" e "ônibus" em uma enumeração ("metrô e ônibus" para "ônibus e metrô") não altera o sentido de que as pessoas são reféns de ambos os meios de transporte.
- D) Incorreta: Assim como na alternativa C, a ordem dos elementos em uma lista ("das enchentes, da violência") não modifica o sentido geral da enumeração de problemas.
- E) Correta: A posição do adjetivo "nova" em relação ao substantivo "gestão urbana" altera o sentido. "Nova gestão urbana" (adjetivo antes do substantivo) sugere uma gestão diferente, inovadora, um novo tipo de gestão. Já "gestão urbana nova" (adjetivo depois do substantivo) indicaria uma gestão que é recente, recém-criada. O texto se refere a uma gestão com uma nova abordagem ("com a participação das organizações civis..."), não apenas a uma gestão que é recente. Portanto, a troca de posição alteraria o sentido de "diferente/inovadora" para "recente".
Fonte: FGV DPGE-RJ 2014 Técnico Médio da Defensoria (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.