Questão nº 12
Questão de Português · FGV DPGE-RJ 2014 (nº 12)
XÓPIS
Não foram os americanos que inventaram o shopping center. Seus antecedentes diretos são as galerias de comércio de Leeds, na Inglaterra, e as passagens de Paris pelas quais flanava, encantado, o Walter Benjamin. Ou, se você quiser ir mais longe, os bazares do Oriente. Mas foram os americanos que aperfeiçoaram a ideia de cidades fechadas e controladas, à prova de poluição, pedintes, automóveis, variações climáticas e todos os outros inconvenientes da rua. Cidades só de calçadas, onde nunca chove, neva ou venta, dedicadas exclusivamente às compras e ao lazer – enfim, pequenos (ou enormes) templos de consumo e conforto. Os xópis são civilizações à parte, cuja existência e o sucesso dependem, acima de tudo, de não serem invadidas pelos males da rua.
Dentro dos xópis você pode lamentar a padronização de lojas e grifes, que são as mesmas em todos, e a sensação de estar num ambiente artificial, longe do mundo real, mas não pode deixar de reconhecer que, se a americanização do planeta teve seu lado bom, foi a criação desses bazares modernos, estes centros de conveniência com que o Primeiro Mundo – ou pelo menos uma ilusão de Primeiro Mundo – se espraia pelo mundo todo. Os xópis não são exclusivos, qualquer um pode entrar num xópi nem que seja só para fugir do calor ou flanar entre as suas vitrines, mas a apreensão causada por essas manifestações de massa nas suas calçadas protegidas, os rolezinhos, soa como privilégio ameaçado. De um jeito ou de outro, a invasão planejada de xópis tem algo de dessacralização. É a rua se infiltrando no falso Primeiro Mundo. A perigosa rua, que vai acabar estragando a ilusão.
As invasões podem ser passageiras ou podem descambar para violência e saques. Você pode considerar que elas são contra tudo que os templos de consumo representam ou pode vê-las como o ataque de outra civilização à parte, a da irmandade da internet, à civilização dos xópis. No caso seria o choque de duas potências parecidas, na medida em que as duas pertencem a um primeiro mundo de mentira que não tem muito a ver com a nossa realidade. O difícil seria escolher para qual das duas torcer. Eu ficaria com a mentira dos xópis.
(Veríssimo, O Globo, 26-01-2014.)
No texto aparece a expressão "primeiro mundo" grafada de duas maneiras distintas: "...ou pelo menos uma ilusão de Primeiro Mundo" e "... as duas pertencem a um primeiro mundo de mentira...". Isso se explica pelo fato de
- Ater havido um erro na segunda grafia.
- Bindicar uma possibilidade de dupla grafia, com o mesmo sentido.
- Ccriticar a desigualdade social com a primeira grafia.
- Dironizar a nossa realidade com a segunda grafia.
- Emostrar uma diferença de valor entre as realidades representadas. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O conceito-chave aqui é que a capitalização (uso de letras maiúsculas ou minúsculas) em português pode ter um valor semântico, ou seja, pode mudar o sentido, a ênfase ou a percepção de um termo, não sendo apenas uma questão de gramática formal, mas um recurso estilístico.
- (A) Incorreta: É improvável que um autor como Veríssimo cometa um erro de grafia tão específico e que, na verdade, serve a um propósito estilístico claro.
- (B) Incorreta: Não se trata de uma dupla grafia com o mesmo sentido. A mudança de maiúscula para minúscula altera a percepção do termo, indicando uma nuance diferente, e não apenas uma variação aceitável de escrita. A armadilha aqui é confundir "dupla grafia" (como "fato/facto" em algumas variantes) com o uso intencional da capitalização para expressar significado.
- (C) Incorreta: A primeira grafia ("Primeiro Mundo") aparece no contexto de "ilusão de Primeiro Mundo". A capitalização aqui sugere o conceito formal ou idealizado, mesmo que seja uma ilusão. A crítica à desigualdade social pode estar presente no texto, mas não é o motivo direto da capitalização em si.
- (D) Incorreta: A segunda grafia ("primeiro mundo de mentira") de fato contribui para a ironia, mas a ironia é mais forte pela expressão "de mentira". A minúscula, nesse caso, reforça a ideia de que não é o "Primeiro Mundo" genuíno, diminuindo seu status ou autenticidade, mas não é a única ou principal forma de ironizar a nossa realidade.
- (E) Correta: A capitalização de "Primeiro Mundo" sugere o conceito estabelecido, idealizado ou formal (mesmo que seja uma "ilusão"). Já a grafia em minúsculas, "primeiro mundo de mentira", desvaloriza o conceito, tratando-o como algo genérico, falso e sem a mesma importância ou autenticidade do "Primeiro Mundo" capitalizado. Essa diferença de grafia, portanto, mostra uma clara distinção no "valor" ou na percepção da realidade que cada expressão representa.
Fonte: FGV DPGE-RJ 2014 Conhecimentos Comuns (Técnico Superior Especializado) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.