Questão nº 5

Questão de Língua Portuguesa · FCC TST 2017 (nº 5)

FCC2017Comum Analista Apoio Especializado TSTLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Atenção: Para responder às questões de números 1 a 5, considere o texto abaixo.

Ponto de vista

“Assim é (se lhe parece)” é a tradução em português do título de uma peça do dramaturgo italiano Luigi Pirandello. Sobre este escritor disse o ator Rubens Caribé: “Para ele, não existe uma só verdade, mas diferentes pontos de vista. Não existe um só homem, mas diversas máscaras que vestimos no dia a dia, desde a hora em que acordamos até a hora em que dormimos. Portanto, não existe uma verdade absoluta”.

O título tem sua malícia: a afirmação taxativa (“assim é”) é logo relativizada pela expressão entre parênteses (“se lhe parece”), do que resulta a insinuação de que podemos estar muito enganados quando julgamos conhecer efetivamente alguma coisa. O suposto “fato” pode ser apenas uma “opinião”. A visão de um objeto implica uma perspectiva para ele. Pirandello acredita, de fato, que a chamada “realidade das coisas” é sempre bastante condicionada pelo ponto de vista a partir do qual vemos o mundo. E vai ainda mais longe: mesmo dentro de cada um de nós, nenhum olhar se consolida para sempre, uma vez que nossos diferentes interesses podem mudar nossa visão de um mesmo objeto. Nossa identidade de indivíduos não é sólida como pode parecer: precisamos, ao longo da vida, de máscaras que encobrem nossas reais necessidades. Viria daí, em boa parte, o prestígio do teatro: vemos encenadas no palco, como expressão de um “fingimento” artístico trabalhado por atores, nossas emoções secretas, nossos desejos encobertos... e verdadeiros.

Uma discussão de verdade, na qual os interessados pretendam refletir e argumentar, deve sempre levar em conta esse relativismo do “parece que é”. Aceitar que nossa visão pode estar sendo prejudicada pelo interesse de ver o que nos convém é o primeiro passo para aceitar a possibilidade de nosso contendor estar certo. A flexibilidade dos diferentes pontos de vista torna qualquer “verdade” mais complexa do que aparenta, e melhor faríamos se atentássemos antes para o que está implicado em nossa visão do que para o fato consumado em que transformamos o que está sob nossa vista. É o melhor modo de nos aproximarmos do que somos, em vez de nos contentarmos com o que parecemos ser.


Uma discussão de verdade, na qual os interessados pretendam refletir e argumentar, deve sempre levar em conta esse relativismo. (3º parágrafo)

Uma nova redação da frase acima considera a adequada articulação entre tempos e modos verbais substituindo-se os segmentos sublinhados, na ordem dada, por:

Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

O conceito-chave é a correlação temporal: quando a oração principal usa um tempo do passado (como "deveria ter levado"), a oração subordinada precisa usar um tempo que exprima anterioridade ou simultaneidade em relação a esse passado. O "pretendam" (presente do subjuntivo) e "deve" (presente do indicativo) do original indicam um presente genérico; para passar a frase para um contexto de passado (como exige a nova redação), é preciso usar pretérito mais-que-perfeito composto do subjuntivo (havessem pretendido) e futuro do pretérito composto (deveria ter levado), criando uma relação de anterioridade e consequência no passado.

  • (A) Incorreta: "pretendessem" (pretérito imperfeito do subjuntivo) não expressa anterioridade em relação a "deva" (presente do subjuntivo), que mantém a frase no presente, quebrando a correlação com o contexto passado.
  • (B) Incorreta: "pretendiam" (pretérito imperfeito do indicativo) e "devesse" (pretérito imperfeito do subjuntivo) criam uma simultaneidade no passado, mas a ideia de "levar em conta" como consequência posterior exige o futuro do pretérito composto, não o imperfeito.
  • (C) Incorreta: "refletissem e argumentassem" (imperfeito do subjuntivo) com "tinha levado" (mais-que-perfeito composto do indicativo) inverte a ordem lógica: a ação de "levar em conta" seria anterior à reflexão, o que não faz sentido no contexto.
  • (D) Correta: "houvessem pretendido" (pretérito mais-que-perfeito composto do subjuntivo) expressa uma ação anterior e concluída no passado; "deveria ter levado" (futuro do pretérito composto) expressa uma consequência hipotética ou condicionada no passado. A correlação é perfeita: a pretensão (anterior) justifica a obrigação de levar em conta (posterior e condicionada).
  • (E) Incorreta: "reflitam e argumentem" (presente do subjuntivo) e "teria levado" (futuro do pretérito composto) misturam presente com passado, sem nexo temporal; o presente não pode condicionar uma ação passada.

Armadilha do distrator mais tentador (B): a banca usa "pretendiam" e "devesse" porque ambos são tempos do passado, o que parece "adequado". A pegadinha é que o imperfeito do subjuntivo ("devesse") indica uma ação simultânea ou posterior no passado, mas não uma consequência condicionada que já se completou. A frase original tem um valor de "obrigação geral" ("deve sempre levar"), que, ao ser transportada para o passado, exige o futuro do pretérito composto ("deveria ter levado") para manter a ideia de que a obrigação era válida naquele momento, mas com um matiz de hipótese ou possibilidade não realizada — algo que o imperfeito não consegue expressar.

Fonte: FCC TST 2017 Conhecimentos Comuns (Analista Apoio Especializado TST) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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