Questão nº 12
Questão de Português · FCC TRT4 2022 (nº 12)
Sobre o amor, etc.
Dizem que o mundo está cada dia menor.
É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.
Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um dia estaríamos todos reunidos em volta de uma mesa farta e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações.
Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas.
Chamem de tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava lindíssimo. Se ela diz "nunca existirá um céu tão bonito assim" estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.
É horrível levar as coisas a fundo. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas de todo dia.
Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos, trancados do lado de fora da vida.
Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! (7º parágrafo)
Segundo argumenta o autor, contrapõe-se inevitavelmente a tal sentimento de "liberdade sadia", no contexto da crônica,
- Aa apatia.
- Bo ciúme.
- Ca alegria.
- Da indiferença.
- Ea solidão. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A interpretação contextual de uma frase exige que se observe o que vem imediatamente antes e depois dela, pois o sentido é construído pela relação entre as ideias no texto. A pergunta busca o que se contrapõe à "liberdade sadia" no contexto dado.
- (A) Incorreta: A apatia (falta de emoção) não é o sentimento que o autor descreve como o contraponto inevitável à liberdade; ele fala de uma percepção de estar "sozinho".
- (B) Incorreta: O ciúme é abordado em outro parágrafo, relacionado à paixão amorosa, e não como o desdobramento da "liberdade sadia" após o término de um amor.
- (C) Incorreta: A alegria é parte do sentimento de "liberdade sadia" ("felizes e livres"), não o seu contraponto.
- (D) Incorreta: A indiferença (falta de interesse ou preocupação) não é o que o texto aponta como a consequência da "liberdade sadia"; o autor foca na percepção de estar "sozinho".
- (E) Correta: O texto afirma: "Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos, trancados do lado de fora da vida." A expressão "Até que" introduz o que inevitavelmente se opõe ou sucede àquela liberdade inicial: a percepção da solidão.
Fonte: FCC TRT4 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico Área Apoio Especializado TRT4 2022) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.