Questão nº 8

Questão de Português · FCC TRT4 2022 (nº 8)

FCC2022Comum Técnico Área Apoio Especializado TRT4 2022Português
Gabarito: Ever comentário ↓

Minha primeira tentativa de ler Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, foi um fracasso. Eu ainda estava na escola e me confundia com as frases longas e as palavras antigas. Acabei desistindo.

Anos depois, li do começo ao fim, desfrutando cada página da história daquela dupla inusitada: o cavaleiro idealista determinado a transformar a realidade para que se assemelhe à de seus livros e seus sonhos; e o escudeiro pragmático que tenta manter seu mestre na dura realidade para que ele não se perca nas nuvens da fantasia.

Tudo é deslumbrante nesse livro, que simboliza melhor do que qualquer outro a infinita variedade da língua espanhola para expressar a condição humana com todas as nuances, a fantasia que leva o ser humano a transformar a vida. Em outras palavras, a forma como a literatura nos defende da frustração, do fracasso e da mediocridade.

O mundo estreito e provinciano de La Mancha, pelo qual Dom Quixote e Sancho fazem sua peregrinação, pouco a pouco se torna, graças à coragem do determinado cavaleiro andante, um universo de aventuras insólitas, em que se entrelaçam audácia, absurdo e humor, para nos mostrar como a imaginação pode transformar o tédio em aventura e converter o cotidiano em uma peripécia inusitada em que se alternam o maravilhoso, o milagroso, o patético – todos os matizes de que se faz a vida.

Em livro recente, o crítico Santiago Muñoz Machado analisa as biografias mais importantes do escritor Miguel de Cervantes para saber em que sociedade surgiu Dom Quixote*. O leitor da obra de Muñoz Machado encontrará tudo: o aparato jurídico que reinava na Espanha enquanto Cervantes escrevia as aventuras de Dom Quixote, as festas populares, a propagação da feitiçaria, os crimes da Inquisição, a vida elevada dos artistas, a mentalidade militar à sombra da Coroa.*

Cervantes era um homem simples e miserável, aparentemente desde muito jovem. No começo da vida, um crime o leva para a Itália. Como todos os humildes, ele se torna soldado. E guerreia em Lepanto contra os turcos, quando não deveria, por causa de condição de que sofria. E, então, devido a raptores berberiscos, ele passou cinco anos em Argel, onde deve ter sofrido o indescritível, sobretudo depois de suas tentativas de fuga. Padres trinitarianos o salvaram, pagando seu resgate. Na Espanha, tentou ir para a América, mas o Estado sequer respondeu às suas cartas. Ou seja, com ele tudo acontecia de maneira tal que ele poderia muito bem se tornar ressentido. E, no entanto, a generosidade e a hombridade de Cervantes estão mais do que garantidas. Era um homem sem remorso, preocupado em elevar a vida de seus concidadãos. Um homem bom e idealista.

Quando li Dom Quixote*, já havia muito tempo que lia romances de cavalaria, nos quais o formalismo tentava frear os excessos da época. Sob a ferocidade das batalhas, surgiu um mundo de paz e ordem, segundo um plano rígido destinado a acabar com a espontaneidade que mostrava o mundo como ele é: pútrido e irremediável. Será que, depois de tanto sofrer na vida, Cervantes também não tivesse buscado a mesma coisa?*


Constata-se a omissão de uma palavra que pode ser subentendida pelo contexto no seguinte trecho:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

Elipse é a omissão de um termo (palavra ou expressão) que pode ser facilmente subentendido pelo contexto da frase. Zeugma é um tipo específico de elipse em que o termo omitido já foi mencionado anteriormente na mesma frase ou em uma frase próxima.

(A) Incorreta: Não há uma palavra omitida e subentendida dentro deste trecho. O sujeito "O mundo estreito e provinciano de La Mancha" está em uma oração anterior, não sendo uma omissão interna ao trecho fornecido.
(B) Incorreta: Todas as palavras necessárias para a compreensão da frase estão presentes, sem omissões.
(C) Incorreta: O sujeito "Ele" (referindo-se a Cervantes) está elíptico (desinencial), o que é comum na língua portuguesa, mas não se trata de uma omissão de um termo nominal ou adjetival que se subentende no próprio trecho, como geralmente se busca em questões de elipse/zeugma.
(D) Incorreta: Não há omissão de palavra subentendida neste trecho.
(E) Correta: No trecho "para que se assemelhe à de seus livros e seus sonhos", a palavra "realidade" está omitida após o "à". A frase completa seria "para que se assemelhe à [realidade] de seus livros e seus sonhos". Essa omissão é um caso de zeugma, pois a palavra "realidade" já foi mencionada anteriormente ("determinado a transformar a realidade").

Fonte: FCC TRT4 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico Área Apoio Especializado TRT4 2022) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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