Questão nº 2
Questão de Português · FCC TRT4 2022 (nº 2)
As calçadas
O inglês tem um verbo curioso, to loiter, que quer dizer, mais ou menos, andar devagar ou a esmo, ficar à toa, zanzar (grande palavra), vagabundear, ou simplesmente não transitar. E nos Estados Unidos (não sei se na Inglaterra também), loitering é uma contravenção. Você pode ser preso por loitering, por estar parado em vez de transitando, numa calçada. O que diferencia um abusivo loitering de uma apenas inocente ausência de movimento ou de direção depende, imagino, da interpretação do guarda, ou também daquela sutil subjetividade que também define o que é uma "atitude suspeita". Mas é difícil pensar em outra coisa que divida mais claramente o mundo anglo-saxão do mundo latino do que o loitering, que não tem nem tradução exata em língua românica, que eu saiba. Se loitering fosse contravenção na Itália, onde ficar parado na rua para conversar ou apenas para ver os que transitam transitarem é uma tradição tão antiga quanto a sesta, metade da população viveria na cadeia. Na Espanha, toda a população viveria na cadeia.
Talvez a diferença entre a América e a Europa, e a vantagem econômica da América sobre os povos que zanzam, se explique pelos conceitos diferentes de calçada: um lugar utilitário por onde se ir (e, claro, voltar) ou um lugar para se estar, de preferência com outros. Os franceses, apesar de latinos, não costumam usar tanto a calçada como sala, não porque tenham se americanizado para aumentar a produção, mas porque preferem usá-la como café, e estar com outros sentados. Desperdiça-se tempo, mas ganham-se anos de vida, parados numa calçada.
(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. O mundo é bárbaro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 69-70)
Nessa crônica carregada de humor, Luis Fernando Verissimo vale-se de certas marcas atribuídas a certas culturas, quando acredita, por exemplo, que
- Aa prática do loitering acabou por reduzir o prazer que os franceses já tiveram em conversar nas calçadas dos cafés.
- Bo loitering é um comportamento típico dos povos anglo-saxões, que assim se diferenciariam dos povos latinos.
- Cuma sanção muito rigorosa da prática do loitering resultaria em pena de reclusão para parte bastante significativa da população italiana. (alternativa correta)
- Da vantagem econômica dos povos latinos sobre os europeus deriva do fato de que aqueles pouco desenvolvem o hábito do loitering.
- Ea classificação do loitering como contravenção impediu que os espanhóis desenvolvessem o mesmo hábito dos italianos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O texto explora as diferenças culturais entre o mundo anglo-saxão e o latino, usando o conceito de "loitering" (vadiar, zanzar) para ilustrar como a percepção e a legalidade de um comportamento podem variar drasticamente entre culturas, com um tom humorístico e irônico.
- (A) Incorreta: O texto afirma que os franceses preferem usar a calçada como café, sentados, não que o loitering tenha reduzido o prazer de conversar.
- (B) Incorreta: O texto sugere o oposto; o comportamento de "zanzar" é comum nos povos latinos, enquanto a palavra e a criminalização do loitering são anglo-saxãs. A armadilha aqui é confundir a origem do termo e sua legalidade com a prática do comportamento em si.
- (C) Correta: O autor afirma, em tom de humor e exagero, que "Se loitering fosse contravenção na Itália... metade da população viveria na cadeia", o que corrobora a ideia de que uma sanção rigorosa resultaria em reclusão para uma parte significativa da população italiana.
- (D) Incorreta: O texto sugere que a vantagem econômica da América (anglo-saxã) sobre os povos que zanzam (latinos) pode estar ligada à visão utilitária da calçada, ou seja, ao não loitering dos americanos, e não o contrário.
- (E) Incorreta: O texto não afirma que o loitering é uma contravenção na Espanha; pelo contrário, ao dizer que "toda a população viveria na cadeia" se fosse, sugere que os espanhóis têm esse hábito de forma acentuada, não impedida.
Fonte: FCC TRT4 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.