Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT24 2016 (nº 3)
Atenção: As questões de números 1 a 4 referem-se ao texto abaixo.
Houve um tempo em que eu comia um monte de coisas e não precisava contar nada para ninguém. Na civilização contemporânea, on-line*, conectada o tempo todo, se não for registrado e postado, não aconteceu. Comeu, jantou, bebeu? Então, prove. Não está na rede? Então, não vale.*
Não estou aqui desfiando lamúrias de dinossauro tecnológico. Pelo contrário: interajo com muita gente e publico ativamente fotos de minhas fornadas. A vida, hoje, é digital. Contudo, presumo que algumas coisas não precisam deixar de pertencer à esfera privada. Sendo tudo tão novo nessa área, ainda engatinhamos a respeito de uma etiqueta que equilibre a convivência entre câmeras, pratos, extroversão, intimidade.
Em meados da década passada, quando a cozinha espanhola de vanguarda ainda povoava os debates e as fantasias de muitos gourmets*, fotografar pratos envolvia um dilema: devorar ou clicar? A criação saía da cozinha, muitas vezes verticalizada, comumente finalizada com esferas delicadas, espumas fugazes... O que fazer, capturá-la em seu melhor instante cenográfico, considerando luzes e sombras, e comê-la depois, já desfigurada, derretida, escorrida? Ou prová-la imediatamente, abrindo mão da imagem? Nunca tive dúvidas desse tipo (o que talvez faça de mim um bom comensal, mas um mau divulgador).*
Fotos e quitutes tornaram-se indissociáveis, e acho que já estamos nos acostumando. Mas será que precisa acontecer durante todo o repasto? Não dá para fazer só na chegada do prato e depois comer sossegado, à maneira analógica? Provavelmente não: há o tratamento da imagem, a publicação, os comentários, as discussões, a contabilidade das curtidas. Reconheço que, talvez antiquadamente, ainda sinto desconforto em ver casais e famílias à mesa, nos salões, cada qual com seu smartphone*, sem diálogos presenciais ou interações reais. A pizza esfria e perde o viço; mas a foto chega tinindo aos amigos de rede.*
(Adaptado de: CAMARGO, Luiz Américo. Comeu e não postou? Então, não valeu. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/09/opinion/1483977251_216185.html)
A construção que pode ser reescrita com o verbo na voz passiva é:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 4.
- A... a foto chega tinindo aos amigos... (4º parágrafo)
- BA criação saía da cozinha... (3º parágrafo)
- C... interajo com muita gente... (2º parágrafo)
- D... publico ativamente fotos de minhas fornadas... (2º parágrafo) (alternativa correta)
- ENão está na rede? (1º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A voz passiva ocorre quando o sujeito da frase sofre a ação do verbo, em vez de praticá-la. Para que uma frase possa ser reescrita na voz passiva (analítica, com o verbo "ser" + particípio), o verbo original precisa ser transitivo direto, ou seja, ele precisa de um objeto direto que possa se tornar o novo sujeito da frase passiva.
(A) Incorreta: O verbo "chega" (chegar) é intransitivo neste contexto, não possuindo objeto direto para ser transformado em sujeito da voz passiva.
(B) Incorreta: O verbo "saía" (sair) é intransitivo, não tendo objeto direto que possa se tornar o sujeito da voz passiva.
(C) Incorreta: O verbo "interajo" (interagir) é transitivo indireto ("interagir com muita gente"), exigindo uma preposição. Verbos transitivos indiretos não formam voz passiva analítica. Esta é uma armadilha comum, pois muitos confundem a presença de um complemento com a possibilidade de passiva.
(D) Correta: O verbo "publico" (publicar) é transitivo direto, e "fotos de minhas fornadas" é o objeto direto. A frase pode ser reescrita na voz passiva: "Fotos de minhas fornadas são publicadas ativamente por mim."
(E) Incorreta: O verbo "está" (estar) é um verbo de ligação, que indica estado, não ação. Verbos de ligação não podem ser transformados para a voz passiva.
Fonte: FCC TRT24 2016 Conhecimentos Comuns (Analista Administrativo) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.