Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT24 2016 (nº 6)
Muito antes de nos ensinarem e de aprendermos as regras de bom comportamento socialmente construídas e promovidas, e de sermos exortados a seguir certos padrões e nos abster de seguir outros, já estamos numa situação de escolha moral. Somos, por assim dizer, inevitavelmente − existencialmente −, seres morais: somos confrontados com o desafio do outro, o desafio da responsabilidade pelo outro, uma condição do ser-para*.*
Afirmar que a condição humana é moral antes de significar ou poder significar qualquer outra coisa representa que, muito antes de alguma autoridade nos dizer o que é "bem" e "mal" (e por vezes o que não é uma coisa nem outra), deparamo-nos com a escolha entre "bem" e "mal". E a enfrentamos desde o primeiro momento do encontro com o outro. Isso, por sua vez, significa que, quer escolhamos quer não, enfrentamos nossas situações como problemas morais, e nossas opções de vida como dilemas morais.
Esse fato primordial de nosso ser no mundo, em primeiro lugar, como uma condição de escolha moral não promete uma vida alegre e despreocupada. Pelo contrário, torna nossa condição bastante desagradável. Enfrentar a escolha entre bem e mal significa encontrar-se em situação de ambivalência. Esta poderia ser uma preocupação relativamente menor, estivesse a ambiguidade de escolha limitada à preferência direta por bem ou mal, cada um definido de forma clara e inequívoca; limitada em particular à escolha entre atuar baseado na responsabilidade pelo outro ou desistir dessa ação – de novo com uma ideia bastante clara do que envolve "atuar baseado na responsabilidade".
(Adaptado de: BAUMAN, Zygmunt. Vida em fragmentos: sobre a ética pós-moderna. Trad. Alexandre Werneck. Rio de Janeiro, Zahar, 2011, p. 11-12.)
Uma afirmação em consonância com as ideias defendidas no texto está em:
- AEmbora os resultados de uma escolha moral estejam sujeitos a fatores externos à intenção do ator, o esforço de se fazer o bem não é empreendido sem satisfação.
- BUma vez que as linhas divisórias entre bem e mal tenham sido previamente traçadas, a ação em prol do outro terá uma consequência facilmente mensurável.
- CA responsabilidade pelo outro não apresenta limites óbvios, nem se traduz facilmente em medidas práticas a serem adotadas ou das quais se abster. (alternativa correta)
- DNa medida em que o bem e o mal não são discerníveis em sua essência, as ações dos indivíduos devem se espelhar na conduta de figuras de autoridade.
- EAs incertezas estão na raiz dos problemas morais e a única receita infalível para a escolha correta são as regras de bom comportamento aprendidas na infância.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O texto argumenta que somos seres morais por natureza, enfrentando escolhas entre "bem" e "mal" e a responsabilidade pelo outro, mesmo antes de aprender regras sociais ou o que autoridades definem como certo ou errado. Essa condição é inerente e muitas vezes ambivalente, não prometendo uma vida fácil.
- (A) Incorreta: O texto afirma que a condição de escolha moral "não promete uma vida alegre e despreocupada. Pelo contrário, torna nossa condição bastante desagradável", o que contradiz a ideia de satisfação.
- (B) Incorreta: O texto sugere o oposto, que a ambiguidade da escolha não está limitada a um bem ou mal "definido de forma clara e inequívoca", implicando que as linhas divisórias não são previamente traçadas de forma simples.
- (C) Correta: O último parágrafo do texto discute a dificuldade da escolha moral, mencionando que seria mais fácil se o bem e o mal fossem "definido de forma clara e inequívoca" e se houvesse uma "ideia bastante clara do que envolve 'atuar baseado na responsabilidade'". A negação dessas condições claras implica que a responsabilidade pelo outro não tem limites óbvios nem medidas práticas fáceis.
- (D) Incorreta: Embora o texto aborde a dificuldade de discernir o bem e o mal, ele afirma que somos confrontados com a escolha moral "muito antes de alguma autoridade nos dizer o que é 'bem' e 'mal'", o que contradiz a ideia de que devemos nos espelhar em figuras de autoridade para guiar nossas ações. A armadilha aqui é que a primeira parte da afirmação ("o bem e o mal não são discerníveis em sua essência") ecoa a ambivalência do texto, mas a conclusão sobre a autoridade vai contra a ideia de moralidade inerente e pré-autoridade.
- (E) Incorreta: O texto estabelece que a escolha moral ocorre "Muito antes de nos ensinarem e de aprendermos as regras de bom comportamento socialmente construídas e promovidas", o que desqualifica as regras da infância como a "única receita infalível".
Fonte: FCC TRT24 2016 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.