Questão nº 1

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT23 2022 (nº 1)

FCC2022Comum Técnico Área Apoio Especializado TRT23 2022Língua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

Atenção: Para responder às questões de números 1 a 5, considere o poema abaixo do escritor mato-grossense Manoel de Barros.

[1] Nosso conhecimento não era de estudar em livros.

Era de pegar de apalpar de ouvir e de outros sentidos.

Seria um saber primordial?

Nossas palavras se ajuntavam uma na outra por amor

[5] e não por sintaxe.

A gente queria o arpejo. O canto. O gorjeio das palavras.

Um dia tentamos até de fazer um cruzamento de árvores

com passarinhos

para obter gorjeios em nossas palavras.

[10] Não obtivemos.

Estamos esperando até hoje.

Mas bem ficamos sabendo que é também das percepções

primárias que nascem arpejos e canções e gorjeios.

Porém naquela altura a gente gostava mais das palavras

[15] desbocadas.

Tipo assim: Eu queria pegar na bunda do vento.

O pai disse que vento não tem bunda.

Pelo que ficamos frustrados.

Mas o pai apoiava a nossa maneira de desver o mundo

[20] que era a nossa maneira de sair do enfado.

A gente não gostava de explicar as imagens porque

explicar afasta as falas da imaginação.

A gente gostava dos sentidos desarticulados como a

conversa dos passarinhos no chão a comer pedaços de

[25] mosca.

Certas visões não significavam nada mas eram passeios

verbais.

A gente sempre queria dar brasão às borboletas.

A gente gostava bem das vadiações com as palavras do

[30] que das prisões gramaticais.

Quando o menino disse que queria passar para as

palavras suas peraltagens até os caracóis apoiaram.

A gente se encostava na tarde como se a tarde fosse

um poste.

[35] A gente gostava das palavras quando elas perturbavam

os sentidos normais da fala.

Esses meninos faziam parte do arrebol como

os passarinhos.

(BARROS, Manoel de. Menino do mato. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015)


"Mas o pai apoiava a nossa maneira de desver o mundo / que era a nossa maneira de sair do enfado." (versos 19 e 20)

No trecho acima, o eu lírico caracteriza sua "maneira de desver o mundo" como um modo de escapar

Este texto de apoio vale também pra questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

O conceito-chave aqui é a sinonímia contextual, ou seja, entender o significado de uma palavra ("enfado") a partir do seu uso no texto e da relação com as ideias expressas pelo eu lírico.

  • (A) Correta: A palavra enfado é sinônimo de tédio, aborrecimento ou fastio. A "maneira de desver o mundo" é apresentada como uma forma criativa e não convencional de perceber a realidade, justamente para escapar da monotonia e do tédio que a visão comum poderia trazer.
  • (B) Incorreta: O poema valoriza a imaginação ("explicar afasta as falas da imaginação"), não busca escapar dela.
  • (C) Incorreta: O eu lírico e os meninos parecem abraçar a ambiguidade e os "sentidos desarticulados" das palavras, não fugir delas.
  • (D) Incorreta: Não há menção direta a autoritarismo no trecho; pelo contrário, o pai apoia a liberdade de pensamento dos filhos.
  • (E) Incorreta: O poema expressa uma busca por novas percepções e significados, o que se opõe ao ceticismo (dúvida, descrença).

Fonte: FCC TRT23 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico Área Apoio Especializado TRT23 2022) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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