Questão nº 12

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 12)

FCC2022Técnico Judiciário - Área AdministrativaLíngua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

O luar continua sendo uma graça da vida, mesmo depois que o pé do homem pisou e trocou em miúdos a Lua, mas o tatu pensa de outra maneira. Não que ele seja insensível aos amavios do plenilúnio; é sensível, e muito. Não lhe deixam, porém, curtir em paz a claridade noturna, de que, aliás, necessita para suas expedições de objetivo alimentar. Por que me caçam em noites de lua cheia, quando saio precisamente para caçar? Como prover a minha subsistência, se de dia é aquela competição desvairada entre bichos, como entre homens, e de noite não me dão folga?

Isso aí, suponho, é matutado pelo tatu, e se não escapa do interior das placas de sua couraça, em termos de português, é porque o tatu ignora sabiamente os idiomas humanos, sem exceção, além de não acreditar em audiência civilizada para seus queixumes. A armadura dos bípedes é ainda mais invulnerável que a dele, e não há sensibilidade para a dor ou a problemática do tatu.

Meu amigo andou pelas encostas do Corcovado, em noite de prata lunal, e conseguiu, por artimanhas só dele sabidas, capturar vivo um tatu distraído. É, distraído. Do contrário não o pegaria. Estava imóvel, estático, fruindo o banho de luz na folhagem, essa outra cor que as cores assumem debaixo da poeira argentina da Lua. Esquecido das formigas, que lhe cumpria pesquisar e atacar, como quem diz, diante de um motivo de prazer: “Daqui a pouco eu vou trabalhar; só um minuto mais, alegria da vida”, quedou-se à mercê de inimigos maiores. Sem pressentir que o mais temível deles andava por perto, em horas impróprias à deambulação de um professor universitário.

− Mas que diabo você foi fazer naqueles matos, de madrugada?

− Nada. Estava sem sono, e gosto de andar a esmo, quando todos roncam.

Sem sono e sem propósito de agredir o reino animal, pois é de feitio manso, mas o velho instinto cavernal acordou nele, ao sentir qualquer coisa a certa distância, parecida com a forma de um bicho. Achou logo um cipó bem forte, pedindo para ser usado na caça; e jamais tendo feito um laço de caçador, soube improvisá-lo com perícia de muitos milhares de anos (o que a universidade esconde, nas profundas camadas do ser, e só permite que venha aflorar em noite de lua cheia!).

Aproximou-se sutil, laçou de jeito o animal desprevenido. O coitado nem teve tempo de cravar as garras no laçador. Quando agiu, já este, num pulo, desviara o corpo. Outra volta no laço. E outra. Era fácil para o tatu arrebentar o cipó com a força que a natureza depositou em suas extremidades. Mas esse devia ser um tatu meio parvo, e se embaraçou em movimentos frustrados. Ou o sereno narrador mentiu, sei lá. Talvez o tenha comprado numa dessas casas de suplício que há por aí, para negócio de animais. Talvez na rua, a um vendedor de ocasião, quando tudo se vende, desde o mico à alma, se o PM não ronda perto.

Não importa. O caso é que meu amigo tem em sua casa um tatu que não se acomodou ao palmo de terra nos fundos da casa e tratou de abrigar longa escavação que o conduziu a uma pedreira, e lá faz greve de fome. De lá não sai, de lá ninguém o tira. A noite perdeu para ele seu encanto luminoso. A ideia de levá-lo para o zoológico, aventada pela mulher do caçador, não frutificou. Melhor reconduzi-lo a seu hábitat, mas o tatu se revela profundamente contrário a qualquer negociação com o bicho humano, que pensa em apelar para os bombeiros a fim de demolir o metrô tão rapidamente feito, ao contrário do nosso, urbano, e salvar o infeliz. O tatu tem razões de sobra para não confiar no homem e no luar do Corcovado.

Não é fábula. Eu compreendo o tatu.

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond. Os dias lindos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)


− [...] que [...] você foi fazer naqueles matos [...]?” (4º parágrafo)

Transposto para o discurso indireto, o trecho acima assumirá a seguinte redação:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

O discurso direto reproduz a fala de alguém exatamente como foi dita, usando aspas ou travessão. Já o discurso indireto narra a fala de alguém, sem reproduzi-la literalmente, adaptando pronomes, tempos verbais e advérbios para se adequar ao narrador.

  • (A) Correta: A frase original está no pretérito perfeito ("foi fazer"). Ao converter para o discurso indireto, o pretérito perfeito geralmente se transforma em pretérito mais-que-perfeito (simples ou composto), que é "tinha ido fazer", mantendo a concordância de pronomes ("você" para "ele") e a estrutura de pergunta indireta ("o que").
  • (B) Incorreta: Esta alternativa ainda apresenta a fala em discurso direto, indicada pelo travessão e pela pontuação, além de usar um tempo verbal inadequado ("haveria de fazer").
  • (C) Incorreta: Embora esteja em discurso indireto, a transformação do tempo verbal "foi fazer" (pretérito perfeito) para "ia fazer" (pretérito imperfeito) não é a mais adequada ou gramaticalmente padrão. O pretérito imperfeito ("ia fazer") seria a conversão para uma ação habitual ou em andamento no passado, ou para "o que você fazia?". A armadilha aqui é que, em contextos informais, essa substituição pode ocorrer, mas a forma mais precisa para o pretérito perfeito é o mais-que-perfeito.
  • (D) Incorreta: Assim como na alternativa B, esta opção mantém o discurso direto, indicado pelo travessão, e utiliza um tempo verbal ("iria fazer") que não corresponde à transformação correta do original.
  • (E) Incorreta: Embora em discurso indireto, a transformação do tempo verbal "foi fazer" (pretérito perfeito) para "iria fazer" (futuro do pretérito) está incorreta. "Iria fazer" seria a conversão para uma ação futura em relação a um ponto no passado ou para "o que você faria?".

Fonte: FCC TRT22 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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