Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 6)
O luar continua sendo uma graça da vida, mesmo depois que o pé do homem pisou e trocou em miúdos a Lua, mas o tatu pensa de outra maneira. Não que ele seja insensível aos amavios do plenilúnio; é sensível, e muito. Não lhe deixam, porém, curtir em paz a claridade noturna, de que, aliás, necessita para suas expedições de objetivo alimentar. Por que me caçam em noites de lua cheia, quando saio precisamente para caçar? Como prover a minha subsistência, se de dia é aquela competição desvairada entre bichos, como entre homens, e de noite não me dão folga?
Isso aí, suponho, é matutado pelo tatu, e se não escapa do interior das placas de sua couraça, em termos de português, é porque o tatu ignora sabiamente os idiomas humanos, sem exceção, além de não acreditar em audiência civilizada para seus queixumes. A armadura dos bípedes é ainda mais invulnerável que a dele, e não há sensibilidade para a dor ou a problemática do tatu.
Meu amigo andou pelas encostas do Corcovado, em noite de prata lunal, e conseguiu, por artimanhas só dele sabidas, capturar vivo um tatu distraído. É, distraído. Do contrário não o pegaria. Estava imóvel, estático, fruindo o banho de luz na folhagem, essa outra cor que as cores assumem debaixo da poeira argentina da Lua. Esquecido das formigas, que lhe cumpria pesquisar e atacar, como quem diz, diante de um motivo de prazer: “Daqui a pouco eu vou trabalhar; só um minuto mais, alegria da vida”, quedou-se à mercê de inimigos maiores. Sem pressentir que o mais temível deles andava por perto, em horas impróprias à deambulação de um professor universitário.
− Mas que diabo você foi fazer naqueles matos, de madrugada?
− Nada. Estava sem sono, e gosto de andar a esmo, quando todos roncam.
Sem sono e sem propósito de agredir o reino animal, pois é de feitio manso, mas o velho instinto cavernal acordou nele, ao sentir qualquer coisa a certa distância, parecida com a forma de um bicho. Achou logo um cipó bem forte, pedindo para ser usado na caça; e jamais tendo feito um laço de caçador, soube improvisá-lo com perícia de muitos milhares de anos (o que a universidade esconde, nas profundas camadas do ser, e só permite que venha aflorar em noite de lua cheia!).
Aproximou-se sutil, laçou de jeito o animal desprevenido. O coitado nem teve tempo de cravar as garras no laçador. Quando agiu, já este, num pulo, desviara o corpo. Outra volta no laço. E outra. Era fácil para o tatu arrebentar o cipó com a força que a natureza depositou em suas extremidades. Mas esse devia ser um tatu meio parvo, e se embaraçou em movimentos frustrados. Ou o sereno narrador mentiu, sei lá. Talvez o tenha comprado numa dessas casas de suplício que há por aí, para negócio de animais. Talvez na rua, a um vendedor de ocasião, quando tudo se vende, desde o mico à alma, se o PM não ronda perto.
Não importa. O caso é que meu amigo tem em sua casa um tatu que não se acomodou ao palmo de terra nos fundos da casa e tratou de abrigar longa escavação que o conduziu a uma pedreira, e lá faz greve de fome. De lá não sai, de lá ninguém o tira. A noite perdeu para ele seu encanto luminoso. A ideia de levá-lo para o zoológico, aventada pela mulher do caçador, não frutificou. Melhor reconduzi-lo a seu hábitat, mas o tatu se revela profundamente contrário a qualquer negociação com o bicho humano, que pensa em apelar para os bombeiros a fim de demolir o metrô tão rapidamente feito, ao contrário do nosso, urbano, e salvar o infeliz. O tatu tem razões de sobra para não confiar no homem e no luar do Corcovado.
Não é fábula. Eu compreendo o tatu.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond. Os dias lindos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)
O cronista manifesta-se explicitamente no texto no seguinte trecho:
- AIsso aí, suponho, é matutado pelo tatu (2º parágrafo) (alternativa correta)
- BA armadura dos bípedes é ainda mais invulnerável que a dele (2º parágrafo)
- CEstava imóvel, estático, fruindo o banho de luz na folhagem (3º parágrafo)
- DSem sono e sem propósito de agredir o reino animal (6º parágrafo)
- EA noite perdeu para ele seu encanto luminoso (8º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Subjetividade do narrador é quando o narrador, ao contar a história, expressa suas próprias opiniões, sentimentos, dúvidas ou interpretações pessoais, em vez de apenas relatar os fatos de forma neutra. É a marca da sua presença e visão no texto.
- (A) Correta: A expressão "suponho" é um verbo na primeira pessoa do singular que indica uma inferência, uma suposição pessoal do narrador. Ele não afirma algo como um fato, mas como uma possibilidade que ele próprio imagina, marcando explicitamente sua presença e sua subjetividade no texto.
- (B) Incorreta: Embora esta frase revele uma crítica ou uma perspectiva do narrador sobre a invulnerabilidade dos humanos, ela é apresentada como uma constatação ou uma generalização, e não como uma dúvida, um sentimento ou uma suposição explícita do narrador sobre o que está sendo dito. É uma afirmação com base em sua visão, mas não uma manifestação explícita de seu processo mental como "suponho".
- (C) Incorreta: Esta frase é uma descrição da ação e do estado do tatu. O narrador está relatando o que observou ou imaginou sobre o animal, sem inserir uma opinião, sentimento ou dúvida pessoal explícita sobre essa observação.
- (D) Incorreta: Esta é uma caracterização do "amigo" do narrador. É uma descrição de suas qualidades e intenções, apresentada como um fato sobre o personagem, e não como uma manifestação direta da subjetividade do narrador (como uma dúvida ou um sentimento pessoal).
- (E) Incorreta: Esta frase descreve a percepção do tatu sobre a noite. O narrador interpreta e relata o estado emocional do animal, mas não expressa uma opinião, sentimento ou dúvida pessoal explícita sobre essa interpretação ou sobre a situação.
Fonte: FCC TRT22 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.