Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 8)
O luar continua sendo uma graça da vida, mesmo depois que o pé do homem pisou e trocou em miúdos a Lua, mas o tatu pensa de outra maneira. Não que ele seja insensível aos amavios do plenilúnio; é sensível, e muito. Não lhe deixam, porém, curtir em paz a claridade noturna, de que, aliás, necessita para suas expedições de objetivo alimentar. Por que me caçam em noites de lua cheia, quando saio precisamente para caçar? Como prover a minha subsistência, se de dia é aquela competição desvairada entre bichos, como entre homens, e de noite não me dão folga?
Isso aí, suponho, é matutado pelo tatu, e se não escapa do interior das placas de sua couraça, em termos de português, é porque o tatu ignora sabiamente os idiomas humanos, sem exceção, além de não acreditar em audiência civilizada para seus queixumes. A armadura dos bípedes é ainda mais invulnerável que a dele, e não há sensibilidade para a dor ou a problemática do tatu.
Meu amigo andou pelas encostas do Corcovado, em noite de prata lunal, e conseguiu, por artimanhas só dele sabidas, capturar vivo um tatu distraído. É, distraído. Do contrário não o pegaria. Estava imóvel, estático, fruindo o banho de luz na folhagem, essa outra cor que as cores assumem debaixo da poeira argentina da Lua. Esquecido das formigas, que lhe cumpria pesquisar e atacar, como quem diz, diante de um motivo de prazer: “Daqui a pouco eu vou trabalhar; só um minuto mais, alegria da vida”, quedou-se à mercê de inimigos maiores. Sem pressentir que o mais temível deles andava por perto, em horas impróprias à deambulação de um professor universitário.
− Mas que diabo você foi fazer naqueles matos, de madrugada?
− Nada. Estava sem sono, e gosto de andar a esmo, quando todos roncam.
Sem sono e sem propósito de agredir o reino animal, pois é de feitio manso, mas o velho instinto cavernal acordou nele, ao sentir qualquer coisa a certa distância, parecida com a forma de um bicho. Achou logo um cipó bem forte, pedindo para ser usado na caça; e jamais tendo feito um laço de caçador, soube improvisá-lo com perícia de muitos milhares de anos (o que a universidade esconde, nas profundas camadas do ser, e só permite que venha aflorar em noite de lua cheia!).
Aproximou-se sutil, laçou de jeito o animal desprevenido. O coitado nem teve tempo de cravar as garras no laçador. Quando agiu, já este, num pulo, desviara o corpo. Outra volta no laço. E outra. Era fácil para o tatu arrebentar o cipó com a força que a natureza depositou em suas extremidades. Mas esse devia ser um tatu meio parvo, e se embaraçou em movimentos frustrados. Ou o sereno narrador mentiu, sei lá. Talvez o tenha comprado numa dessas casas de suplício que há por aí, para negócio de animais. Talvez na rua, a um vendedor de ocasião, quando tudo se vende, desde o mico à alma, se o PM não ronda perto.
Não importa. O caso é que meu amigo tem em sua casa um tatu que não se acomodou ao palmo de terra nos fundos da casa e tratou de abrigar longa escavação que o conduziu a uma pedreira, e lá faz greve de fome. De lá não sai, de lá ninguém o tira. A noite perdeu para ele seu encanto luminoso. A ideia de levá-lo para o zoológico, aventada pela mulher do caçador, não frutificou. Melhor reconduzi-lo a seu hábitat, mas o tatu se revela profundamente contrário a qualquer negociação com o bicho humano, que pensa em apelar para os bombeiros a fim de demolir o metrô tão rapidamente feito, ao contrário do nosso, urbano, e salvar o infeliz. O tatu tem razões de sobra para não confiar no homem e no luar do Corcovado.
Não é fábula. Eu compreendo o tatu.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond. Os dias lindos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)
O termo que qualifica o substantivo na expressão feitio manso (6º parágrafo) tem sentido equivalente ao termo que qualifica o substantivo em:
- Aencanto luminoso (8º parágrafo).
- Baudiência civilizada (2º parágrafo).
- Cvelho instinto (6º parágrafo).
- Dprofundas camadas (6º parágrafo).
- Esereno narrador (7º parágrafo). (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O conceito de sinonímia contextual busca identificar palavras ou expressões que, embora não sejam sinônimos exatos em todos os contextos, possuem significados equivalentes ou muito próximos dentro de uma frase ou texto específico. No caso de "feitio manso", o adjetivo "manso" descreve a natureza ou temperamento do professor como calmo, gentil, não agressivo.
- A) Incorreta: "Luminoso" descreve uma qualidade de luz ou brilho do encanto, não um temperamento ou característica de personalidade.
- B) Incorreta: "Civilizada" descreve uma qualidade de comportamento ou educação da audiência, implicando polidez e razão. Embora seja uma característica, "manso" refere-se mais a uma disposição interna de calma, enquanto "civilizada" se liga a normas sociais. É um distrator, pois também descreve uma característica, mas de natureza diferente (social/comportamental vs. temperamental).
- C) Incorreta: "Velho" indica a idade ou antiguidade do instinto, não seu temperamento.
- D) Incorreta: "Profundas" descreve a profundidade das camadas, não um temperamento.
- E) Correta: "Sereno" descreve o temperamento do narrador como calmo, tranquilo, pacífico. Assim como "manso" descreve uma natureza gentil e não agressiva, "sereno" descreve uma disposição calma e equilibrada, sendo o sinônimo contextual mais adequado.
Fonte: FCC TRT22 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.