Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 10)
O luar continua sendo uma graça da vida, mesmo depois que o pé do homem pisou e trocou em miúdos a Lua, mas o tatu pensa de outra maneira. Não que ele seja insensível aos amavios do plenilúnio; é sensível, e muito. Não lhe deixam, porém, curtir em paz a claridade noturna, de que, aliás, necessita para suas expedições de objetivo alimentar. Por que me caçam em noites de lua cheia, quando saio precisamente para caçar? Como prover a minha subsistência, se de dia é aquela competição desvairada entre bichos, como entre homens, e de noite não me dão folga?
Isso aí, suponho, é matutado pelo tatu, e se não escapa do interior das placas de sua couraça, em termos de português, é porque o tatu ignora sabiamente os idiomas humanos, sem exceção, além de não acreditar em audiência civilizada para seus queixumes. A armadura dos bípedes é ainda mais invulnerável que a dele, e não há sensibilidade para a dor ou a problemática do tatu.
Meu amigo andou pelas encostas do Corcovado, em noite de prata lunal, e conseguiu, por artimanhas só dele sabidas, capturar vivo um tatu distraído. É, distraído. Do contrário não o pegaria. Estava imóvel, estático, fruindo o banho de luz na folhagem, essa outra cor que as cores assumem debaixo da poeira argentina da Lua. Esquecido das formigas, que lhe cumpria pesquisar e atacar, como quem diz, diante de um motivo de prazer: “Daqui a pouco eu vou trabalhar; só um minuto mais, alegria da vida”, quedou-se à mercê de inimigos maiores. Sem pressentir que o mais temível deles andava por perto, em horas impróprias à deambulação de um professor universitário.
− Mas que diabo você foi fazer naqueles matos, de madrugada?
− Nada. Estava sem sono, e gosto de andar a esmo, quando todos roncam.
Sem sono e sem propósito de agredir o reino animal, pois é de feitio manso, mas o velho instinto cavernal acordou nele, ao sentir qualquer coisa a certa distância, parecida com a forma de um bicho. Achou logo um cipó bem forte, pedindo para ser usado na caça; e jamais tendo feito um laço de caçador, soube improvisá-lo com perícia de muitos milhares de anos (o que a universidade esconde, nas profundas camadas do ser, e só permite que venha aflorar em noite de lua cheia!).
Aproximou-se sutil, laçou de jeito o animal desprevenido. O coitado nem teve tempo de cravar as garras no laçador. Quando agiu, já este, num pulo, desviara o corpo. Outra volta no laço. E outra. Era fácil para o tatu arrebentar o cipó com a força que a natureza depositou em suas extremidades. Mas esse devia ser um tatu meio parvo, e se embaraçou em movimentos frustrados. Ou o sereno narrador mentiu, sei lá. Talvez o tenha comprado numa dessas casas de suplício que há por aí, para negócio de animais. Talvez na rua, a um vendedor de ocasião, quando tudo se vende, desde o mico à alma, se o PM não ronda perto.
Não importa. O caso é que meu amigo tem em sua casa um tatu que não se acomodou ao palmo de terra nos fundos da casa e tratou de abrigar longa escavação que o conduziu a uma pedreira, e lá faz greve de fome. De lá não sai, de lá ninguém o tira. A noite perdeu para ele seu encanto luminoso. A ideia de levá-lo para o zoológico, aventada pela mulher do caçador, não frutificou. Melhor reconduzi-lo a seu hábitat, mas o tatu se revela profundamente contrário a qualquer negociação com o bicho humano, que pensa em apelar para os bombeiros a fim de demolir o metrô tão rapidamente feito, ao contrário do nosso, urbano, e salvar o infeliz. O tatu tem razões de sobra para não confiar no homem e no luar do Corcovado.
Não é fábula. Eu compreendo o tatu.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond. Os dias lindos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)
Em Não lhe deixam, porém, curtir em paz a claridade noturna, de que, aliás, necessita para suas expedições de objetivo alimentar (1º parágrafo), os termos sublinhados referem-se, respectivamente, a
- A“tatu” e “tatu”.
- B“homem” e “tatu”.
- C“claridade noturna” e “tatu”.
- D“tatu” e “claridade noturna”. (alternativa correta)
- E“homem” e “claridade noturna”.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A referenciação pronominal é o uso de pronomes (palavras que substituem nomes) para retomar termos já mencionados no texto, evitando repetições e garantindo a coesão.
Análise da frase: "Não lhe deixam, porém, curtir em paz a claridade noturna, de que, aliás, necessita para suas expedições de objetivo alimentar"
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"lhe": Este pronome oblíquo se refere a quem sofre a ação de "não deixam". O parágrafo anterior fala sobre o tatu e sua sensibilidade ao plenilúnio ("Não que ele seja insensível..."). Portanto, "não lhe deixam" significa "não deixam ao tatu".
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"que": Este pronome relativo retoma o termo imediatamente anterior a ele que está sendo qualificado ou sobre o qual se dá mais informação. A frase diz que o tatu "necessita" de algo. O que ele necessita? Ele necessita "da claridade noturna". Assim, "de que" retoma "a claridade noturna".
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(A) Incorreta: O primeiro "tatu" está correto para "lhe", mas o segundo "tatu" está incorreto para "que", que se refere à "claridade noturna".
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(B) Incorreta: "Homem" está incorreto para "lhe", pois o contexto é sobre o tatu. "Tatu" está incorreto para "que".
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(C) Incorreta: "Claridade noturna" está incorreto para "lhe", pois "lhe" se refere a um ser (o tatu). "Tatu" está incorreto para "que".
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(D) Correta: "Lhe" refere-se ao "tatu", que é quem não consegue curtir a claridade. "Que" retoma "claridade noturna", pois é dela que o tatu necessita.
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(E) Incorreta: "Homem" está incorreto para "lhe", pois o pronome se refere ao tatu. "Claridade noturna" está correto para "que", mas a primeira parte da alternativa está errada.
Fonte: FCC TRT22 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.