Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT20 2024 (nº 9)
Do Rubem Braga para Vinícius de Moraes
Gosto muito da crônica que Rubem Braga publicou depois que seu amigo Vinícius de Moraes se foi. Em forma de carta, o cronista dá ao poeta notícias atualizadas sobre o Rio, as moças do Rio, a vida, a natureza em flor, a chegada da primavera, as promessas no ar... E para arrematar sua despedida, diz:
— Vou ficando por aqui mais um pouco...
Esse "vou ficando" resume a contingência de todos nós, esse estado provisório que gostamos de tratar como se eterno fosse. Esse "vou ficando" soa como desculpa por ainda estar vivo o cronista melancólico diante da ausência de um ardoroso poeta amigo, que tanto soube amar a vida.
Quem conheceu o velho Braga admitirá que o tempo dele foi sempre marcado por uma nostalgia profunda, dessas que existem garantindo que não têm cura. Esse "vou ficando" soa, assim, como uma espécie de resignação final de quem não alcançou o teto das expectativas e aguarda agora os protocolos do tempo implacável.
Admiro muito essas frases sintéticas, supostamente simples, mas de muitas camadas, ressonâncias e projeções. A gente se abeira delas e elas vão minando água fresca, para saciar nossa sede de consolos. Agora mesmo tive vontade de dizer a todos os parentes e amigos que já partiram:
— Vou ficando mais um pouco...
Como nada mais tenho que possa lhes oferecer, fico recitando essa frase, com esse gerúndio expressivo, essa indiscrição de um vivo, essa penitência de quem fica à espera da curva depois da qual não se pode mais ficar nem um pouquinho.
Rubem Braga endereçou ao amigo Vinícius de Moraes uma frase que encantou o autor do texto porque ela
- Atraduz com contido lirismo o esvanecimento da memória de quem partiu há muito tempo.
- Bexpressa em linguagem retórica o apreço do cronista pela perenidade de uma grande amizade.
- Cmanifesta para o saudoso poeta amigo as convicções espiritualistas de um fervoroso cronista.
- Dsintetiza com simplicidade afetuosa a saudade de quem aqui ficou num tempo provisório. (alternativa correta)
- Eevoca os tempos felizes em que houve o compartilhamento de tantas paixões e amizades.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O conceito-chave aqui é a interpretação textual, que consiste em entender o que o autor do texto quis expressar e como ele interpretou a frase de Rubem Braga. É fundamental identificar a ideia central e os detalhes que a justificam, sem adicionar informações externas ao texto.
- A) Incorreta: O texto não fala sobre o "esvanecimento da memória", mas sim sobre a presença da ausência do amigo e a reflexão do que fica. A frase é uma reação à partida recente, não ao esquecimento de algo "há muito tempo".
- B) Incorreta: Embora a amizade seja grande, a frase não foca na "perenidade" (eternidade) dela, mas sim na "contingência" e no "estado provisório" de quem ficou. A linguagem é descrita como "sintética" e "simples", não primariamente "retórica".
- C) Incorreta: O texto não menciona "convicções espiritualistas" do cronista. A interpretação da frase se concentra na melancolia, resignação e na natureza provisória da vida, sem conotação religiosa ou espiritualista.
- (D) Correta: Esta alternativa resume perfeitamente a análise do autor. A frase é descrita como "sintética, supostamente simples, mas de muitas camadas", o que se alinha com "sintetiza com simplicidade". O contexto é de um amigo que se foi, gerando "saudade" e um tom "afetuoso". E a ideia de "tempo provisório" é explicitamente mencionada: "resume a contingência de todos nós, esse estado provisório que gostamos de tratar como se eterno fosse."
- E) Incorreta: A frase "Vou ficando..." não evoca primariamente "tempos felizes" passados. Pelo contrário, ela é uma reflexão melancólica sobre a ausência do amigo e a condição de quem permanece vivo, num tom de resignação e consciência da finitude.
Fonte: FCC TRT20 2024 Técnico Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.