Questão nº 9

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT20 2024 (nº 9)

FCC2024Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador FederalLíngua Portuguesa
Gabarito: Cver comentário ↓

Poesia e ciência

É comum se dizer que poucas atividades criativas são tão antagônicas quanto a poesia e a ciência. Enquanto uma expressa uma visão subjetiva e emocional do mundo, a outra expressa uma visão universal e racional. Enquanto uma é produto de inspiração e lirismo, a outra o é de dedução e análise. A obra de certos poetas, no entanto, além de extremamente técnica, mostra uma profunda apreciação da visão científica prevalecente na época.

Como exemplo, tenho em mente o poeta romano Lucrécio, que viveu aproximadamente entre 96 e 55 a.C. Em um mundo completamente dominado por religiões politeístas, baseadas em ritos pagãos, a voz de Lucrécio soa como uma verdadeira luz nas trevas, uma proclamação contra o medo criado pela ignorância e pela obediência cega à autoridade. O poeta convida seus leitores a olhar para o mundo e seus mistérios através da razão, argumentando que esse é o único caminho para a nossa liberação. Eis um exemplo, livremente parafraseado:

"Quando a vida humana, arrastando-se pela Terra, era esmagada pelas crendices, um homem grego pela primeira vez alçou bravamente seus olhos mortais contra esses tormentos [...] Sua força era a mente, que ele usou para explorar a vasta imensidão do espaço, trazendo-nos novas do que é ou não é possível, limites ou fronteiras forjadas para sempre. As crendices, assim, foram controladas e, desde então, nós podemos alcançar as estrelas".

Dois mil anos após serem escritos, os versos de Lucrécio ecoam com incrível modernidade. Na passagem de mais um milênio*, quando muitos sentem-se vulneráveis perante as várias profecias apocalípticas, sugiro uma nova leitura de Lucrécio, poeta da ciência e da lucidez apaixonada.

* Este texto foi publicado em 1999.

(Adaptado de GLEISER, Marcelo. Retalhos cósmicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 21-22)


Depois de afirmar, no primeiro parágrafo, que poucas atividades são tão antagônicas quanto a poesia e a ciência, o autor do texto

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

O conceito-chave aqui é a progressão argumentativa do texto. O autor apresenta uma ideia comum (tese), e em seguida, introduz uma ressalva ou um contraponto (antítese) para desenvolver seu argumento principal.

(A) Incorreta: O texto afirma que a obra de certos poetas é "extremamente técnica", o que contradiz a ideia de uma "importância apenas relativa" da técnica.
(B) Incorreta: O autor não consolida a convicção de antagonismo; pelo contrário, ele a qualifica imediatamente, mostrando que há exceções. A ideia de que inspiração dispensa técnica também é refutada pela menção a poetas "extremamente técnicos". Esta é a armadilha, pois tenta fazer o leitor focar na primeira parte da frase do texto, ignorando a virada argumentativa.
(C) Correta: Após apresentar a visão comum do antagonismo, o autor introduz a ressalva: "A obra de certos poetas, no entanto, além de extremamente técnica, mostra uma profunda apreciação da visão científica prevalecente na época." Isso "ressalta a existência de poetas cujo empenho artístico é marcado pela técnica e pelo reconhecimento da ciência".
(D) Incorreta: O texto não menciona uma disputa entre poesia e ciência pela primazia de atingir valores universais. Ele descreve as características que as tornam antagônicas (subjetiva/emocional vs. universal/racional).
(E) Incorreta: O foco do texto é em poetas que apreciam a ciência, e não em cientistas que usam inspiração poética. O exemplo de Lucrécio reforça o foco nos poetas.

Fonte: FCC TRT20 2024 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.

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