Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT18 2022 (nº 7)
Atenção: Leia a crônica "A casadeira", de Carlos Drummond de Andrade, para responder às questões de números 1 a 9.
Testemunhei ontem, na loja de Copacabana, um acontecimento banal e maravilhoso. A senhora sentou-se na banqueta e cruzou elegantemente as pernas. O vendedor, agachado, calçou-lhe o par de sapatos. Ela se ergueu, ensaiou alguns passos airosos em frente do espelho, mirou-se, remirou-se, voltou à banqueta. O sapato foi substituído por outro. Seguiu-se na mesma autocontemplação, e o novo par de sapatos foi experimentado, e nova verificação especular. Isso, infinitas vezes. No semblante do vendedor, nem cansaço, nem impaciência. Explica-se: a cliente não refugava os sapatos experimentados. Adquiria-os todos. Adquiriu dozes pares, se bem contei.
− Ela está fazendo sua reforma de base? − perguntei a outro vendedor, que sorriu e esclareceu:
− A de base e a civil. Vai se casar pela terceira vez.
− Coitada... Vocação de viúva.
− Não é isso, senhor. Os dois primeiros maridos estão vivos. É casadeira, sabe como é?
Não me pareceu que, para casar pela terceira vez, ela tivesse necessidade de tanto calçamento. Oito ou nove pares seriam talvez para irmãs de pé igual ao seu, que ficaram em casa? Hipótese boba, que formulei e repeli incontinente. Ninguém neste mundo tem pé igual ao de ninguém, nem sequer ao de si mesmo, quanto mais ao da irmã. Daí avancei para outra hipótese mais plausível. Aquela senhora, na aparência normal, devia ter pés suplementares, Deus me perdoe, e usava-os dois de cada vez, recolhendo os demais mediante uma organização anatômica (ou eletrônica) absolutamente inédita. Observei-a com atenção e zelo científico, na expectativa de movimento menos controlado, que denunciasse o segredo. Nada disso. Até onde se podia perceber, eram apenas duas pernas, e bem agradáveis, terminando em dois exclusivos pés, de esbelto formato.
Assim, a coleção era mesmo para casar − e fiquei conjeturando que o casamento é uma rara coisa, exigindo a todo instante que a mulher troque de sapato, não se sabe bem para quê − a menos que os vá perdendo no afã de atirá-los sobre o marido, e eles (não o marido) sumam pela janela do apartamento.
A senhora pagou − não em dinheiro ou cheque, mas com um sorriso que mandava receber num lugar bastante acreditado, pois já reparei que as maiores compras são sempre pagas nele, e aos comerciantes agrada-lhes o sistema. As caixas de sapato adquiridas foram transportadas para o carro, estacionado em frente à loja. Mentiria se dissesse que eram doze carros monumentais, com doze motoristas louros, de olhos azuis. Não. Era um carro só, simplesinho, sem motorista, nem precisava dele, pois logo se percebeu sua natureza de teleguiado. Sem manobra, flechou no espaço e sumiu, levando a noiva e seus doze pares de França, perdão! de sapatos. Eu preveni que o caso era banal e maravilhoso.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Cadeira de balanço. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
Mentiria se dissesse que eram doze carros monumentais, com doze motoristas louros, de olhos azuis. (8º parágrafo)
Em relação à oração que o precede, o trecho sublinhado expressa ideia de
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 8, questão nº 9.
- Aconsequência.
- Boposição.
- Ccausa.
- Dconcessão.
- Econdição. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Orações subordinadas adverbiais condicionais indicam uma condição para que a ação da oração principal aconteça ou não. Elas geralmente são introduzidas por conjunções como "se", "caso", "contanto que", "desde que", estabelecendo uma hipótese.
- (A) Incorreta: Consequência expressa o resultado de uma ação, geralmente introduzida por "que" (precedido de "tão", "tanto", "tamanho"). O "se" não indica resultado, mas sim uma hipótese.
- (B) Incorreta: Oposição (ou adversidade) indica um contraste ou quebra de expectativa, introduzida por conjunções como "mas", "porém", "todavia". Não há contraste aqui.
- (C) Incorreta: Causa indica o motivo ou a razão de algo, geralmente introduzida por "porque", "já que", "como". O "se" não expressa a razão pela qual o ato de mentir ocorreria, mas sim a condição para que essa afirmação fosse verdadeira.
- (D) Incorreta: Concessão expressa uma ideia contrária à principal, mas que não impede sua realização, introduzida por "embora", "ainda que", "mesmo que". Não há uma ideia que se opõe e não impede a principal.
- (E) Correta: A conjunção "se" introduz uma condição para que a oração principal ("Mentiria") se realize. A ação de mentir só seria verdadeira se a condição de "disser que eram doze carros monumentais..." fosse cumprida. A armadilha da banca pode ser confundir a relação de dependência com causa ou consequência, mas o "se" é um marcador inequívoco de condição, estabelecendo uma hipótese para a validade da afirmação principal.
Fonte: FCC TRT18 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico - Área Apoio Especializado) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.