Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT18 2022 (nº 6)
Atenção: Leia a crônica "A casadeira", de Carlos Drummond de Andrade, para responder às questões de números 1 a 9.
Testemunhei ontem, na loja de Copacabana, um acontecimento banal e maravilhoso. A senhora sentou-se na banqueta e cruzou elegantemente as pernas. O vendedor, agachado, calçou-lhe o par de sapatos. Ela se ergueu, ensaiou alguns passos airosos em frente do espelho, mirou-se, remirou-se, voltou à banqueta. O sapato foi substituído por outro. Seguiu-se na mesma autocontemplação, e o novo par de sapatos foi experimentado, e nova verificação especular. Isso, infinitas vezes. No semblante do vendedor, nem cansaço, nem impaciência. Explica-se: a cliente não refugava os sapatos experimentados. Adquiria-os todos. Adquiriu dozes pares, se bem contei.
− Ela está fazendo sua reforma de base? − perguntei a outro vendedor, que sorriu e esclareceu:
− A de base e a civil. Vai se casar pela terceira vez.
− Coitada... Vocação de viúva.
− Não é isso, senhor. Os dois primeiros maridos estão vivos. É casadeira, sabe como é?
Não me pareceu que, para casar pela terceira vez, ela tivesse necessidade de tanto calçamento. Oito ou nove pares seriam talvez para irmãs de pé igual ao seu, que ficaram em casa? Hipótese boba, que formulei e repeli incontinente. Ninguém neste mundo tem pé igual ao de ninguém, nem sequer ao de si mesmo, quanto mais ao da irmã. Daí avancei para outra hipótese mais plausível. Aquela senhora, na aparência normal, devia ter pés suplementares, Deus me perdoe, e usava-os dois de cada vez, recolhendo os demais mediante uma organização anatômica (ou eletrônica) absolutamente inédita. Observei-a com atenção e zelo científico, na expectativa de movimento menos controlado, que denunciasse o segredo. Nada disso. Até onde se podia perceber, eram apenas duas pernas, e bem agradáveis, terminando em dois exclusivos pés, de esbelto formato.
Assim, a coleção era mesmo para casar − e fiquei conjeturando que o casamento é uma rara coisa, exigindo a todo instante que a mulher troque de sapato, não se sabe bem para quê − a menos que os vá perdendo no afã de atirá-los sobre o marido, e eles (não o marido) sumam pela janela do apartamento.
A senhora pagou − não em dinheiro ou cheque, mas com um sorriso que mandava receber num lugar bastante acreditado, pois já reparei que as maiores compras são sempre pagas nele, e aos comerciantes agrada-lhes o sistema. As caixas de sapato adquiridas foram transportadas para o carro, estacionado em frente à loja. Mentiria se dissesse que eram doze carros monumentais, com doze motoristas louros, de olhos azuis. Não. Era um carro só, simplesinho, sem motorista, nem precisava dele, pois logo se percebeu sua natureza de teleguiado. Sem manobra, flechou no espaço e sumiu, levando a noiva e seus doze pares de França, perdão! de sapatos. Eu preveni que o caso era banal e maravilhoso.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Cadeira de balanço. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
Verifica-se o emprego de vírgula para isolar um vocativo no seguinte trecho:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 7, questão nº 8, questão nº 9.
- AEla se ergueu, ensaiou alguns passos airosos em frente do espelho, mirou-se, remirou-se, voltou à banqueta. (1º parágrafo)
- BNão é isso, senhor. Os dois primeiros maridos estão vivos. (5º parágrafo) (alternativa correta)
- CÉ casadeira, sabe como é? (5º parágrafo)
- DNão me pareceu que, para casar pela terceira vez, ela tivesse necessidade de tanto calçamento. (6º parágrafo)
- ENão. Era um carro só, simplesinho, sem motorista, nem precisava dele, pois logo se percebeu sua natureza de teleguiado. (8º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A vírgula é usada para separar o vocativo, que é a palavra ou expressão que usamos para chamar ou nos dirigir diretamente a alguém ou algo dentro da frase.
(A) Incorreta: As vírgulas separam orações coordenadas assindéticas que indicam uma sequência de ações do sujeito ("Ela").
(B) Correta: A vírgula isola o termo "senhor", que é um vocativo, ou seja, a pessoa a quem a fala se dirige.
(C) Incorreta: A vírgula separa uma oração coordenada assindética ("É casadeira") de uma oração coordenada sindética explicativa ("sabe como é?"). A armadilha é que "sabe como é?" pode parecer um chamamento, mas é uma oração explicativa, não um vocativo direto.
(D) Incorreta: As vírgulas isolam uma oração subordinada adverbial de finalidade deslocada ("para casar pela terceira vez").
(E) Incorreta: As vírgulas separam termos com função explicativa ou adjetiva ("simplesinho", "sem motorista") e uma oração coordenada sindética explicativa ("pois logo se percebeu...").
Fonte: FCC TRT18 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico - Área Apoio Especializado) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.