Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT18 2022 (nº 2)
Atenção: Leia a crônica "A casadeira", de Carlos Drummond de Andrade, para responder às questões de números 1 a 9.
Testemunhei ontem, na loja de Copacabana, um acontecimento banal e maravilhoso. A senhora sentou-se na banqueta e cruzou elegantemente as pernas. O vendedor, agachado, calçou-lhe o par de sapatos. Ela se ergueu, ensaiou alguns passos airosos em frente do espelho, mirou-se, remirou-se, voltou à banqueta. O sapato foi substituído por outro. Seguiu-se na mesma autocontemplação, e o novo par de sapatos foi experimentado, e nova verificação especular. Isso, infinitas vezes. No semblante do vendedor, nem cansaço, nem impaciência. Explica-se: a cliente não refugava os sapatos experimentados. Adquiria-os todos. Adquiriu dozes pares, se bem contei.
− Ela está fazendo sua reforma de base? − perguntei a outro vendedor, que sorriu e esclareceu:
− A de base e a civil. Vai se casar pela terceira vez.
− Coitada... Vocação de viúva.
− Não é isso, senhor. Os dois primeiros maridos estão vivos. É casadeira, sabe como é?
Não me pareceu que, para casar pela terceira vez, ela tivesse necessidade de tanto calçamento. Oito ou nove pares seriam talvez para irmãs de pé igual ao seu, que ficaram em casa? Hipótese boba, que formulei e repeli incontinente. Ninguém neste mundo tem pé igual ao de ninguém, nem sequer ao de si mesmo, quanto mais ao da irmã. Daí avancei para outra hipótese mais plausível. Aquela senhora, na aparência normal, devia ter pés suplementares, Deus me perdoe, e usava-os dois de cada vez, recolhendo os demais mediante uma organização anatômica (ou eletrônica) absolutamente inédita. Observei-a com atenção e zelo científico, na expectativa de movimento menos controlado, que denunciasse o segredo. Nada disso. Até onde se podia perceber, eram apenas duas pernas, e bem agradáveis, terminando em dois exclusivos pés, de esbelto formato.
Assim, a coleção era mesmo para casar − e fiquei conjeturando que o casamento é uma rara coisa, exigindo a todo instante que a mulher troque de sapato, não se sabe bem para quê − a menos que os vá perdendo no afã de atirá-los sobre o marido, e eles (não o marido) sumam pela janela do apartamento.
A senhora pagou − não em dinheiro ou cheque, mas com um sorriso que mandava receber num lugar bastante acreditado, pois já reparei que as maiores compras são sempre pagas nele, e aos comerciantes agrada-lhes o sistema. As caixas de sapato adquiridas foram transportadas para o carro, estacionado em frente à loja. Mentiria se dissesse que eram doze carros monumentais, com doze motoristas louros, de olhos azuis. Não. Era um carro só, simplesinho, sem motorista, nem precisava dele, pois logo se percebeu sua natureza de teleguiado. Sem manobra, flechou no espaço e sumiu, levando a noiva e seus doze pares de França, perdão! de sapatos. Eu preveni que o caso era banal e maravilhoso.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Cadeira de balanço. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
O cronista lança mão da figura de linguagem conhecida como hipérbole em:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8, questão nº 9.
- AHipótese boba, que formulei e repeli incontinente. (6º parágrafo)
- BVai se casar pela terceira vez. (3º parágrafo)
- CIsso, infinitas vezes. (1º parágrafo) (alternativa correta)
- D− Coitada... Vocação de viúva. (4º parágrafo)
- EO sapato foi substituído por outro. (1º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Hipérbole é uma figura de linguagem que consiste no uso intencional de um exagero para expressar uma ideia de forma mais intensa, dramática ou humorística, sem a intenção de ser levada ao pé da letra.
(A) Incorreta: "Hipótese boba" é uma avaliação subjetiva do narrador sobre sua própria ideia, não um exagero de quantidade ou intensidade.
(B) Incorreta: "Vai se casar pela terceira vez" é uma afirmação factual sobre o número de casamentos, sem qualquer exagero.
(C) Correta: "Infinitas vezes" é um exagero claro para indicar que a ação de experimentar sapatos foi repetida muitas e muitas vezes, mas não literalmente um número infinito de vezes, o que caracteriza a hipérbole.
(D) Incorreta: "Vocação de viúva" é uma expressão irônica ou uma suposição equivocada do narrador, não um exagero de uma característica ou evento. A crônica logo desmente a ideia de que ela seja viúva.
(E) Incorreta: "O sapato foi substituído por outro" é uma descrição literal e objetiva de uma ação, sem qualquer tipo de exagero.
Fonte: FCC TRT18 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico - Área Apoio Especializado) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.