Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 6)
Vale quanto pesa
Numa era obcecada pela magreza e pelos objetos portáteis, a literatura popular anda na contramão. Basta observar as prateleiras das livrarias, para constatar que os best-sellers – aquelas obras que oferecem diversão em estado puro, sem pretensões intelectuais – andam cada vez mais grossos. Sejam eles romances água-com-açúcar, de terror ou ficção científica, eles parecem feitos sob medida para entrar nos quadros de Fernando Botero. Tome-se como exemplo dois lançamentos recentes de autoras que fazem muito sucesso no Brasil. O Regresso, de Rosamunde Pilcher, tem 1091 páginas e pesa 1,52 quilo. Os Favoritos de Fortuna, de Colleen McCullough, é ainda maior: 1205 páginas e quase 2 quilos no ponteiro da balança. Não que medidas como essas sejam novidade no terreno das letras – o primeiro romance moderno, Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes, já era um calhamaço considerável. Mas os livros de ficção engordam atualmente por ordem expressa dos editores. Amparados em pesquisas de mercado, eles pedem aos autores histórias mais longas, que resultem em livros mais cheios. Querem pesos pesados – e isso não se refere ao recheio intelectual.
(Adaptado de GRAIEB, Carlos. Revista Veja. 1 de abril, 1998)
A relação entre o título Vale quanto pesa e o conteúdo do texto é entendida como uma
- Areferência histórica à tradição literária, que sempre priorizou obras de maior extensão.
- Bapologia aos editores que promovem histórias longas para atender a demandas de mercado.
- Cdefesa explícita do valor literário das obras mais extensas, consideradas mais profundas que as clássicas.
- Dironia sobre a valorização de livros volumosos no mercado editorial, mesmo que seu conteúdo não seja necessariamente de grande qualidade. (alternativa correta)
- Ecrítica direta ao público leitor, que prefere livros mais longos independentemente de seu conteúdo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A relação entre o título e o conteúdo de um texto muitas vezes utiliza recursos como a ironia, que é a arte de dizer o contrário do que se pensa, ou de usar uma expressão de forma a subverter seu sentido original, criando um contraste entre o que é dito e o que é realmente significado.
- (A) Incorreta: O texto menciona "Dom Quixote" como exemplo de obra longa, mas não afirma que a tradição literária sempre priorizou obras de maior extensão, e a ironia do título não se baseia nessa prioridade histórica.
- (B) Incorreta: O texto descreve a ação dos editores, mas o título não funciona como uma apologia (elogio ou defesa) a essa prática, e sim como uma observação crítica ou irônica sobre ela.
- (C) Incorreta: O texto explicitamente afirma que os livros são "sem pretensões intelectuais" e que o peso "não se refere ao recheio intelectual", o que contradiz a ideia de uma defesa de valor literário ou profundidade.
- (D) Correta: A expressão popular "Vale quanto pesa" sugere que o valor de algo é proporcional ao seu peso ou substância. No texto, o autor usa essa expressão de forma irônica, pois os livros são fisicamente pesados e volumosos, mas o conteúdo é descrito como "diversão em estado puro, sem pretensões intelectuais" e o peso "não se refere ao recheio intelectual". Há, portanto, uma valorização do volume físico no mercado editorial que não corresponde necessariamente a uma grande qualidade ou profundidade intelectual, caracterizando a ironia.
- (E) Incorreta: Embora o texto mencione "pesquisas de mercado" que os editores usam, a crítica principal ou a ironia não é direcionada diretamente ao público leitor, mas sim à lógica do mercado editorial que prioriza o volume em detrimento do conteúdo intelectual.
Fonte: FCC TRT15 2024 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.