Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 3)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 6, baseie-se no texto abaixo.
[Eternidade do guarda-chuva]
Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal veio apanhar a crônica que eu acabara de escrever, pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva que parecesse digno da classe média, e ele o fez com competência. Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo. Senti então uma certa simpatia por ele, meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso para saber qual a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais intenso a mudanças. Sou apenas um quarentão, e praticamente nenhum objeto da minha infância existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele tem se mantido digno. Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa pequena barraca. Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais. Ele já era funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido de que iria para cima do telhado quentar sol, como fazem os urubus.*
*quentar sol: forma popular para "esquentar ao sol"
(Adaptado de BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 1978, p. 217-218)
O autor surpreende na imagem do guarda-chuva alguma complexidade, quando admite que ele
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6.
- Alhe inspira permanentemente um insuperável e velho rancor.
- Bse mostra com a versatilidade das máquinas modernas.
- Ccumpre um destino análogo ao das sombrinhas futuristas.
- Dcombina o aspecto algo risível com o fúnebre. (alternativa correta)
- Econota a tragicidade de nossa era atômica.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Para entender a complexidade de um objeto na visão do autor, precisamos procurar descrições que mostrem lados diferentes ou até contraditórios do mesmo item.
- (A) Incorreta: O texto afirma que o "velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho", contradizendo a ideia de um rancor permanente e insuperável.
- (B) Incorreta: O autor destaca que o guarda-chuva, ao contrário das máquinas modernas, resistiu às mudanças e não se modificou, mostrando falta de versatilidade em sua forma.
- (C) Incorreta: O texto compara o guarda-chuva às sombrinhas, dizendo que estas "se entregaram aos piores desregramentos futuristas", enquanto ele "permaneceu austero", indicando destinos opostos, não análogos.
- (D) Correta: O texto diz explicitamente: "tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa pequena barraca", o que mostra a complexidade de combinar aspectos tão distintos na sua imagem.
- (E) Incorreta: O autor descreve o guarda-chuva como algo que "entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia", o que sugere resiliência e desapego, e não uma conotação de tragicidade.
Fonte: FCC TRT15 2024 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.